O barbeiro da Jovem Guarda

O Roberto Carlos nunca foi multado, mas parava na contramão, ‘voava’ a 300 por hora na estrada de Santos e anunciava: “Por isso, eu corro de demais, corro demais, só pra te ver meu bem”. O Ronnie Cord entrava na Rua Augusta a 120 por hora, punha a turma toda do passeio pra fora e parava a quatro dedos da vitrine. (Legal!…). O Eduardo Araújo fazia cavalo de pau com seu carro vermelho e não usava espelho para se pentear. Nas ondas da Rádio Tupi, o Hélio Ribeiro paquerava a moça do Karman Ghia vermelho, todos os dias, na hora do almoço. Wilson Simonal curtia um Corcel cor de mel e um Mustang cor de sangue. Jorge Ben tinha um fusca e um violão. Carlos Cará, quatro Cadilacs e um Simca Tufão. Uma bela coleção, mas depois, tudo se estragou — apareceu até um Fuscão preto. Toda aquela turma dirigia bem, mas quase todos tinham um barbeiro em comum –- barbeiro campineiro, não sei se ás do volante, mas exímio com a tesoura, o pente e a navalha: Colemar.

Lembrei-me dele quando o jornalista João Nunes contou, aqui no “Caderno C”: “Roberto Carlos, enfim, decidiu cortar o cabelo. Viu que andava passado demais para usar tamanha cabeleira, foi ao barbeiro da esquina e se transformou.”. Pensei: “Pronto, ele veio ao Colemar, de novo…”.

Mas onde está o Colemar? Ainda esta semana, tive notícias dele vindas de outros dois artistas: Zé Turco, o mais antigo de Campinas, com salão na Oliveira Cardoso, 107, Castelo, e Osmar, da Galeria Trabulsi. Mas e o endereço do Colemar? “Parece que ele está perto do campo da Ponte”, arriscou o Zé Turco. Colemar tem muitas aventuras para contar. Seu salão ficava no Edifício Anhumas, o mais alto da cidade, naqueles tempos de Brasa, Tremendão e Ternurinha. Para não dar bandeira, a garotada procurava os salões de madrugada, para alisar os cabelos, fazer touca, sei lá, punham ‘bobies’, também? Os barbeiros tradicionais não gostavam muito daquela moda de cabelos compridos – os meninos só apareciam a cada quatro, cinco meses para arrumar a cabeleira inspirada em Paul, Ringo, John e George. “Cada marmanjão com cara de Príncipe Valente! Sei não, só falta um brinquinho…” Agora não falta nada.

Quando o Ronnie Von veio com aquelas madeixas, a suspeita sobre os jovens guardas aumentaram. Na época, um amigo se defendeu: “Não é porque eu deixei meu cabelo igual ao do Ronnie Von, que eu sou bicha.” Retruquei: “Então é por quê?” Está correndo atrás de mim até hoje!

Pregado no poste: “Você já viu barbeiro careca? E barbudo?”

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