O truque

Ônibus nunca rendeu boas histórias. Ônibus não tem graça nenhuma: é fechado, não tem ar, é um forno, apertado, tem catraca, janelas, motor barulhento, é sujo. Enquanto isso, os bondes, ah, os bondes!, eram alegres, arejados, abertos, “cinco lugares em cada banco”; bonde tinha estribo, balaustre, cortinas para proteger da chuva, anúncio do rum creosotado para o “ilustre passageiro”; bonde tinha “cozinha”. Ninguém viajava triste nos bondes, ninguém viaja alegre nos ônibus. E os bondes tinham motorneiros e cobradores. Cobradores como seo Vignatti. Um ônibus jamais teria seo Vignatti sentado atrás da catraca. A alegria (e educação) dele, só nos bondes.
Os bondes de Campinas eram um soneto: 14 linhas, 14 versos, rimando e ritmando a cidade. Vila, Guanabara, Taquaral, Estação, Cambuí, Bonfim, Botafogo via Culto à Ciência, Castelo, Bosque, Saudade (puts, Campinas tinha um bonde chamado “Saudade”, lindo, lindo! Nem ele ficou.), Estanislau, Alecrins — como a árvore abatida no Largo da Matriz. Também morreu.
(Eu me lembro de apenas uma história engraçada no ônibus. Ele subia lotado e fidido, devagar, quase parando, a Avenida Brigadeiro Luís Antônio, em São Paulo, debaixo de uma chuva que Deus mandava. Perto do Teatro Bandeirantes, uma senhora aflita gritou da calçada para o motorista: “Que ônibus é esse?”. E ele respondeu com sotaque de milionário carioca: “Mercedes Benz…”. Ninguém riu. Estavam de ônibus…)
Agora, o cidadão paulistano Iwan Thomas Halasz dá uma dica, segundo ele infalível, para que nenhum motorista deixe de parar no ponto, principalmente quando o aceno é de passageiros idosos. “Basta exibir uma caneta. O motorista sabe que com aquela caneta, o passageiro que for abandonado no ponto será capaz de escrever o número da placa e o prefixo do ônibus, para denunciá-lo à prefeitura.”. Seo Iwan jura que funciona.
Será que a Prefeitura toma alguma providência?
No tempo do bonde, seo Vignati tirava o boné e estendia a mão para receber passageiras e crianças: “É uma honra tê-la em nosso carro, madame. Todos bem em casa? Estimo. Faça uma boa viagem.”.
Pregado no poste: “Quero Campinas de volta.”

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