O berço ameaçado

Uma cidade em que matam um centenário alecrim para que turistas possam fotografar à vontade a Catedral perdeu a fé.
Uma cidade que derruba um teatro para abrir um estacionamento renunciou à cultura.
Uma cidade onde vereador quer legislar sobre a espessura da pizza vendida em restaurante tem gente que não sabe votar.
Uma cidade em que o prefeito se esconde quando servidores municipais entram em greve não tem prefeito.
Uma cidade onde uma estudante de doze anos se orgulha de ser filha do maior traficante do bairro perdeu a educação.
Uma cidade em que bandos de camelôs e perueiros ditam as regras do comércio e do transporte público é regida pelo vale-tudo.
Uma cidade onde a polícia ou profissionais da saúde só entram em certos bairros se traficantes deixarem perdeu a coragem.
Uma cidade que pretende multar seus pedestres, sem que eles tenham a mínima condição de conforto e segurança de andar pelas ruas, saqueia o povo.
Uma cidade que deixa assassinos nas ruas para que matem crianças em série em suas escolas perdeu o futuro.
Uma cidade que se transforma em paraíso de traficantes de armas, barões da droga e ladrões da mais alta expressão é terra de ninguém.
Uma cidade que se vê invadida por políticos alienígenas, em busca de bandidos e de notoriedade, para salvar a Pátria das drogas não tem autoridades.
Uma cidade que precisa de políticos para denunciar que ela está infestada de marginais de colarinho branco ou de botinas amarelas perdeu a vergonha.
Uma cidade de autoridades frouxas ou coniventes, onde seus próprios cofres são mais importantes do que os cofres públicos, é refém da ganância.
Uma cidade em que a população sobrevive trancafiada em casa, empilhada em prédios ou atrás das grades de condomínios, para que bandidos passeiem livres (e protegidos!) por seus logradouros, pode ter cúmplices no poder.
Uma cidade que deixa morrer de descaso uma árvore majestosa que a viu nascer perdeu seu passado.
Uma cidade que cogita negociar seu berço, para que no lugar seja construído um shopping center, matou sua história.
Pregado no poste: “Assim jaz Campinas”

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