O jovem nu

Hoje, a meninada leva para a escola revólveres, espingardas, granadas, metralhadoras… Ninguém mais pensa em entrar com estilingue escondido na mochila. E quando se carregava estilingue, era para caçar passarinho. As armas de hoje são para matar o colega, o professor, a diretora. Afinal de contas, o País evoluiu, graças à competência e honestidade de seus políticos e demais autoridades.

O rigor da inspeção em saber o que cada criança tinha na bolsa antes de entrar em classe acabou. Lancheira? Pra quê, se a cola de sapateiro, o pó e o craque também enganam a fome? Uma vez, o Treco levou um sapo… deixa pra lá.

Outro dia, estava conversando com um ex-aluno do Culto à Ciência, turma de 1957 (desculpe, amigo, mas perdi o papel onde anotei seu nome), tempo em que o uniforme dos rapazes era calça comprida, paletó e gravata. Era proibido tirar o paletó até para se coçar. Colarinho desabotoado ou nó frouxo na gravata, então, era “caso de diretoria” – se bem que a vontade da dona Gladis era levar o infrator para a delegacia. Outra falha imperdoável – dava suspensão – era entrar na sala de aula depois do professor. E quando ele entrava, todos tinham de recebê-lo em pé e calados.

E esse amigo me contou de duas suspensões que tomou exatamente por transgredir essas duas normas, inacreditáveis nos dias (tenebrosos) de hoje. Na primeira vez, ele chegou junto com a dona Mercedes, professora de Português, e quis ser cavalheiro com a mestra. Pediu que ela entrasse primeiro. Ela agradeceu, entrou e proibiu que ele entrasse: “Depois da professora, nenhum aluno entra na classe! O senhor vá para a Diretoria!”. Exagero ou respeito a qualquer custo?

A outra suspensão seria cômica não fosse a seriedade com as normas do colégio. Ele chegou à escola com a gravata no bolso do paletó, para “vesti-la” quando batesse o sinal. Foi flagrado pela a inspetora de alunos e levada ao então diretor Euclides Pinto da Rocha. (Homem bravo estava ali.). O coitado teve de ir embora pra casa com a seguinte observação na caderneta, dirigida aos pais: “Seu filho foi suspenso das aulas de hoje por se apresentar despido na escola”. Ele guarda a caderneta até hoje.

Pregado no poste: “Todo político é culpado. Até os inocentes”.

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