Feito à mão

Minha avó dizia que eu era “quatro pau” para fugir do serviço. Não é bem assim. Ainda não sei descascar laranja, batata cozida nem alho. Falta habilidade para passar roupa, abrir lata, pregar botões, acertar o calendário do relógio, desfazer nó do cordão do sapato, tirar espinha de peixe, fazer furo fininho na lata de azeite, trocar lâmpada… Ainda acho que é o computador que me ensina escrever nele. Imagine a tortura na aula de trabalhos manuais. Ainda existe?

Tinha um tal de fio tex — a gente comprava no Timóteo Barreiro – um inferno para ser trançado. Só me lembro dos nomes das tranças: simples, chata, quadrada, redonda, sextavada… Servia para fazer chaveiro, chicote, recuperar assento de cadeira de palhinha… Aí, o Guilerme Nucci, embaixador de Campinas em Vila Velha, e o Carlos de Paula Neto entraram na conversa. Vamos ouvir:

“Fazíamos tecelagem com tiras de papel trançadas com uma espécie de agulha de madeira chata e um corte na traseira, em vez de furos.” Epa!

“E sacola de argolas das Lojas Americanas e barbante comprado em ‘chicote’ no Armazém Dragão, na Rua Lusitana com Tomás Alves. O ponto era um só, mas se aberto, dava um formato de flor de quatro pétalas; se fechado, fazia um cordão. O fio macramé de várias cores dava para envolver garrafas e lápis, formando uma nervura que corria os objetos em parafuso.”.

“Serrinha tico-tico? A madeira compensada vinha do Erbolato, do Teatro Municipal. Ele tinha um papagaio. Quando a gente batia na porta, o papagaio falava ‘Erbolato, tem gente!’. Tinha ainda um aparato de madeira que se prendia à mesa com uma morça, pra mor de serrar os cantos.”.

“Fazíamos capa de couro para livros. Podiam-se recortar as iniciais em madeira compensada, molhar e prensar sobre o couro durante dois dias, que ficava a marca. Duro era armar poliedros de cartolina: quem diz que a gente conseguia colar aquela lingüetinha do último lado que fechava um cubo? Ah, peças em gesso! Fiz muito pratinho para parede com foto 3×4 ou alguma gravura pequena.”

Esperem aí! Assim, vocês matam os artesãos de inveja! “Marcador de livro de couro (a ponta inferior terminava em franjinha); brinquedos com palito de sorvete: aviões, carros, caminhões, carroças… Alguém se recorda de um brinquedo chamado Mec-Brás? Era feito pela Estrela. Tinha várias peças, todas de metal, perfuradas, pintadas de verde e vermelho. Junto, centenas de parafusos, porcas e arruelas. Montava-se de tudo: pontes, prédios, guindastes, caminhões… Um precursor do legus.”.

Por favor, um de vocês pode me descascar esse ovo cozido?

Pregado no poste: “Quem usa arma usa a alma?”

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