Embarque neste livro e boa viagem

Ela não é dos tempos heróicos, mas para quem tem pavor de avião, como eu, ela será sempre uma heroína dos tempos. Tenho fascínio por aviões, mas eles lá em cima e eu cá embaixo. Pousos e decolagens são verdadeiras coisas de louco, e jamais considerei “programa de índio” ver avião chegar e sair de Congonhas, Viracopos, Galeão ou Cumbica. Santos Dumont, que viveu nesta nossa terra e estudou na minha escola, o Culto à Ciência, deve ter sido alguém em permanente delírio. Ninguém, mas ningúem, mesmo, em sã consciência, entra naquilo com naturalidade.

Um jornalista do Jornal da Tarde, grande amigo, o Lenildo Tabossa Pessoa, exímio piloto, se propôs a dar um curso para tirar meu medo. Deixou um recado em minha máquina de escrever no ‘Estadão’: “Espero você e outros medrosos, na segunda-feira, às sete da noite, lá no arquivo.”. Não deu tempo. No fim de semana, voando perto de Recife, sua terra, o avião dele caiu.

Esse medo sempre trouxe muita gozação – troça, dizia minha avó – sobre minha pessoa. Certa vez, a ONU abriu o Arquipélago de Galápagos à visitação de alguns biológos de várias partes do mundo e convidou dois jornalistas brasileiros: o grande Rubem Braga e este humilde locutor que vos escreve. Sabendo do pânico que me domina, a Varig, encarregada de levar o pessoal, tratou de me impor três meses de treinamento intensivo com seu médico especialista em medicina de aviação, para evitar fiascos à bordo. Até um diretor da empresa foi junto.

Embarcamos em Congonhas, para pegar o 707 rumo a Guaiaquil, no Galeão. Que vexame! Depois de tantos medicamentos, recomendações, análises, psicanálises – até acumpuntura! –, quando fui abrir o jornal que a comissária Manoela me entregou, os braços não saíram do lugar – nem as pernas. Ela baixou o oxigênio e foi decidida: “Já mandei recolher seu passaporte. O senhor não segue viagem e recomendo que volte a São Paulo de ônibus.” O diretor, Fernando o nome dele, tentou crescer na massa: “Eu sou diretor da companhia e esse jornalista viaja comigo…” Ela cortou: “O senhor é diretor, mas eu também sou médica e ele não viaja.”.

Até hoje, não sei onde foi parar meu passaporte. Só me lembrei de meu primeiro e único passaporte quando cheguei em casa e dei com aquela santa com cara de “comadre Maria, cadê o padre?”. Como sempre, troquei a Varig pelo Cometa.

Lembrei-me dessa infeliz passagem da vida quando li, há pouco, que uma valente campineira de nome Paula De Paula (Muito prazer!) lançou o livro “Diário de uma Comissária de Bordo”. Ô mulher corajosa essa Paula! Deve ser ótimo.

No sítio da Paula na Internet, há esta mensagem: “O instante previsto parece aproximar-se: um homem, representando a todos, vai elevar-se aos céus. Não ao sabor dos ventos, como se poderia supor, mas com o poder de decidir sua direção. Apontará um aparelho, concebido e construído por ele, para o Oeste; como alvo, a imensa torre na paisagem. Com graça inesperada, irá contorná-la, tendo sob si uma multidão de testemunhas, com seus chapéus ao alto, em júbilo, e retornará ao ponto de partida em tempo recorde, para cumprir a profecia: um dia um homem descerá dos céus em um aparelho e revelará o segredo de voar.” Bonito, não? Conta a Paula que é extraído do livro “Alberto Santos Dumont – Eu naveguei pelo ar”, da Editora Nova Fronteira. Ela acrescenta: “É uma obra maravilhosa, que recomendo aos apaixonados pelo assunto.”. E arremata: “Com este pequeno trecho, deixo aqui a minha homenagem àqueles que cruzam diariamente nosso céus e fazem dele a sua morada.”. Quando li que as tripulações moram no céu me deu um frio na barriga…!

Pregado no poste: “Óculos escuro é aquilo que usam para prender os cabelos”

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