E quem multa o guarda?

Dedico esta crônica a todos os leitores que, diariamente, freqüentam a página 2 do nosso Correio Popular, enfurecidos com a incompetência das “autoridades” civis, militares e policiais encarregadas de cuidar do trânsito de Campinas e de encher os cofres do Poder com a produção da indústria da multa.
Esse desmando é histórico e conto aqui quatro histórias para provar.
1. Há uns vinte anos, um senhor muito educado me procurou na redação do Estadão. Estava revoltado, embora escondesse a indignação. Tirou do bolso do paletó o comprovante de uma multa que lhe fôra aplicada pelo DSV (esse é o nome da fábrica de multas da cidade de São Paulo). Motivo do achaque: direção perigosa, a 133 quilômetros por hora, na Praça da Sé. Algo impossível de acontecer. Nem de helicóptero ele seria capaz disso — a praça era um canteiro de obras para a abertura da nova estação do metrô. Nem era permitido o tráfego de veículos ali, naquele tempo. Quando eu ia chamar um repórter para denunciar a insanidade, aquele senhor me interrompeu: “Não! O que me traz aqui não é o absurdo da velocidade. É que eu não tenho carteira de motorista, nunca tive automóvel na vida, não tenho homônimos e recebi esse aviso de multa na minha casa!.” Os burocratas do tal de DSV puseram a culpa no computador. E se esse senhor, para evitar aborrecimentos, tivesse pago a multa? Para quem iria o dinheiro?
2. Semana passada, inacreditável, descobrimos aqui em Ribeirão Preto, que a Polícia Rodoviária (quem te viu, quem te vê…) foi capaz de multar um trólebus (ônibus elétrico), da Prefeitura de Ribeirão, por trafegar em excesso de velocidade na Via Anhangüera, perto de Limeira. Tudo impossível: um trólebus jamais andaria em excesso de velocidade. Muito menos na Via Anhangüera, posto que essa rodovia e nenhuma outra do Brasil têm cabos de eletricidade. E o que um ônibus elétrico de Ribeirão estaria fazendo na região de Campinas? O pior vem agora: a empresa dona do ônibus entrou com recurso na Justiça e perdeu! Só quando a imprensa denunciou o descalabro, tudo foi anulado e o trólebus, liberado para voltar às ruas. Ele ficou recolhido, enquanto a Justiça decidia. E decidiu contra ele! Dá-lhe, Brasil!
3. Agora, vejo uma carta do meu amigo jornalista Luciano Ornelas num jornal, narrando seu drama, provocado pelo deboche das “autoridades” com os cidadãos. Ele recebeu, em casa, um comunicado da secretaria de Finanças da Prefeitura de São Paulo. Diz o documento que ele foi multado por excesso de velocidade na Marginal do Pinheiros, mas, como os argumentos que ele usou ao recorrer da punição fossem razoáveis, a secretaria decidiu devolver a ele o valor da multa, calculado em R$ 420,00. Na carta publicada no jornal, o Luciano conta, irônico como ele só, que nunca foi multado na Marginal do Pinheiros, nunca recorreu de multa alguma e deduzia, portanto, que a “tchurma” do prefeito Celso “Maluf” Pitta está distribuindo dinheiro público à população. Ainda se fosse uma distribuição de frangos…
4. Última: fiscais daquela estatal do ar chamada Cetesb multaram um trólebus (outro!) de Ribeirão Preto, na cidade de Mogi das Cruzes. A incompetência começa aí (como um trólebus de Ribeirão vai circular em Mogi?) e termina no motivo da infração: emissão de fumaça. Na cabeça desses “fiscais”, ônibus elétrico solta fumaça.
Pregado no poste: “Estão todos soltos?”

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