Minha terra tinha

Quando soube que os perueiros passaram a aceitar propinas dos passageiros, para não cobrar passagem e fugir da fiscalização, me ocorreu que, agora, “minha terra tem peruas, que vão a todo lugar; as aves que aí dão gorjeta não dão gorjeta como lá”. Perdão, Gonçalves Dias!

Aprendi uma poesia na escola primária, mas agora percebo que não adianta ensiná-la aos meus filhos, principalmente depois do que fizeram com rio Atibaia: “Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste! Criança! Não verás nenhum país como este! Olha que céu! que mar! que rios! que floresta! A natureza aqui, perpetuamente em festa, é um seio de mãe a transbordar carinhos”. Viu no que deu, Olavo Bilac?

Pregado num quarto do Jardim Itatinga: “As raparigas que dançavam, Luciana, a pálida, todas como frutos apodrecerão porque só há um destino, com muitos caminhos, embora”. Se alguém lá se hospedar um dia, ou uma noite, escreva embaixo: Augusto Frederico Schmidt, um poeta… profeta.

Houve tempo em que estes versos ficariam bem no portão de entrada do “Brinco de Ouro”:  “Nunca subiram tanto as raias do proscênio. Dilata-se num sonho o que se passa aqui: faz-se imponente, augusta, a elevação do gênio; dá-se uma coisa enorme, estranha – O Guarani.” Mas Castro Rebelo Junior, que escreveu isso no ano da fundação do Bugre e morreu um ano depois, não contava que um dia “as raias do proscênio” seriam ocupadas por um tal de Beto Zini e a vaca, em vez de ir “proscênio”, quase foi “pro brejo”.

No começo do século, Murilo Mendes já previa o resultado da omissão dos políticos brasileiros: “Chegam nus, chegam famintos à grade dos nossos olhos. Expulsos da tempestade de fogo, vêm de qualquer parte do mundo, ancoram na nossa inércia. Precisam de olhos novos, de outras mãos, precisam de arados e sapatos, de lanternas e bandas de música, da visão do licorne e da comunidade com Jesus. Os pobres nus e famintos, nós os fizemos assim”. Ei, Pretinha! Bota esse numa placa de invasão dos sem-teto.

Versos que eu dedico ao cônego Caram, “o amigo das árvores”: “Toda árvore é sagrada. Ama-a. Ama-a na glória matutina e reza: Bendita sejas por tuas frondes benfazejas, pelos teus cânticos triunfais, por tuas flores e perfume… por tuas sombras maternais” (Ricardo Gonçalves). “Toda natureza é um anseio de serviço. Serve a nuvem, serve o vento, serve o sulco. Onde houver uma árvore para plantar, planta-a tu” (Gabriela Mistral). “As raízes são almas subterrâneas, têm pensamentos verdes. Árvores e homens se confundem, contam histórias do tempo em que os poetas foram árvores” (Paulo Bonfim). Um certo alecrim está sorrindo no Céu.

Fagundes Varella me manda do Além estes versos com um recado ao prefeito: “Ainda dá tempo!”. Dizem assim: “Ditoso o justo, que afastado vive do concílio dos maus e do caminho trilhado por perversos pecadores! E que nunca ensinou, bem como o ímpio, do negro vício as máximas corruptas!” Antes só do que mal acompanhado, seu Pagano!

Todos os dias, estes versos de Gonçalves Dias me martelam: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o Sabiá. Não permita Deus que eu morra, sem que volte para lá”. Mas cada vez que volto a Campinas, diante de tanta crueldade e violência cometidas contra ela, Manuel Bandeira fala mais alto: “Vou-me embora pra Pasárgada!”

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