Vozes do aquém-2

Vamos continuar nossa conversa de ontem? São tantas as histórias, que dá para ficar um dia inteiro papeando. Para você, que está chegando agora, falávamos sobre as vozes, muitas desconhecidas, mas todas lembradas, que saíam dos alto-falantes de Campinas, para ganhar a alma e a memória dos campineiros. Tudo porque a Telesp, depois de vinte anos, trocou a “dona” das mensagens nas ligações a cobrar. Agora, há outra mulher advertindo quem paga e quem não pode pagar.
A Vila Industrial tinha um serviço espetacular de alto-falantes. Era quase uma estação de rádio a serviço dos moradores da Vila da Fé. Pelo menos dois locutores saíram de lá para as rádios de Campinas: Carlos Luz, que animava os carnavais na Salles Oliveira, e Ary B. Pontes, o mesmo vozeirão do serviço de som do Bosque dos Jequitibás, depois apresentador do programa “Luzes da Cidade”, em todas as nossas emissoras. Boa gente, o Ary, o maior fã que o cantor Nelson Gonçalves teve na vida.
Ontem, falamos ainda das aventuras e desventuras do Pedro Azevedo no alto-falante do “Majestoso”. Muito antes do Pedro, numa tarde de sábado, jogavam Ponte Preta e Corinthians. Logo no começo do jogo, o locutor chamou meu pai à portaria do estádio. Na pressa, para não perder um lance da partida, ele havia fechado as portas das Lojas Americanas, onde trabalhava, e foi direto assistir à partida. Na portaria do “Moysés Lucarelli”, um funcionário do clube avisou: “Ligaram aqui desesperados; o senhor fechou a loja e deixou um monte de funcionários trancados lá dentro…”.
Mas a melhor história de todas, que eu me lembre, aconteceu com um técnico de som da Rádio Brasil. Você se lembra de quem foi, Renato Otranto? O Manfred Menck? Acho que não. Foi em 1963, ano do plebiscito que decidiu pela troca do regime parlamentarista pelo presidencialista. O governador de São Paulo, desculpem a expressão, era o Adhemar de Barros. Ele era contra o parlamentarismo, mas como o presidencialismo devolveria o poder ao Jango, veio fazer comício a favor do regime que ele mesmo combatia. Você entendeu? Nem precisa, é coisa de político.
Palanque armado no Largo do Rosário, a Rádio Brasil, que já naquele tempo não perdia uma, ia transmitir a discurseira. Era um palanque verde, de madeira, bem ali na frente da Glicério, entre a Casa Etam e o edifício Güernelli, de frente para o Palácio da Justiça e de costas para o Éden Bar. (Dizem que quando vinha o Jânio Quadros, ele ficava de costas para a Justiça e de frente para o bar…). Sempre o mesmo palanque, que a Prefeitura instalava para os desfiles de Carnaval. Desfile de Carnaval e discurso de político é a mesma coisa: tudo fantasia. A única diferença é que os foliões são autênticos.
O técnico puxou os fios, pendurou os alto-falantes nos postes e tentava ligar o som do microfone. Como sempre acontece nessas horas, nada de a “coisa” funcionar. O largo cheio de gente, os “home” chegando e nada. Silêncio nos alto-falantes. Irritado, o técnico fez o que todo mundo faz diante de uma geringonça encrencada. Ele esmurrou e esbravejou: “Droga! Essa m… não fala!”.
Bem naquela hora, falou.
Pregado no poste: “Horário político – transmissão exclusiva pelo canal do esgoto”.

 

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