Voz das urnas

 

“Voto apurado, ouvinte informado!”. Assim, Salvador Lombardi Neto anunciava pela Rádio Educadora a “marcha das apurações”. Na Cultura, ouvia-se uma vinheta marcante, silvo agudo, intermitente — e o bom baiano Cunha Mendes bradava: “Atenção Campinas!”. No final da informação, arrematava: “Na fatura do voto, Cultura na frente!”.  De fato, cada vez mais o voto é uma fatura vecida de eleitores derrotados.

A contagem dos votos acontecia no Palácio da Justiça. (Usei quatro vezes em seis linhas a palavra voto porque, convenhamos, o sinônimo é medonho: sufrágio, embora no Brasil, rime com naufrágio – tudo a ver…)

Ninguém informa corretamente. Afinal, nas eleições deste ano, sabe-se, presos condenados poderão votar. Mas as “otoridades” não esclarecem direitinho quais as exigências. Por exemplo: nas unidades de segurança máxima haverá pleito? Preso em São Paulo, com título de outro estado, vai justificar como? Nos presídios, votar é facultativo? O processo será manual (cédula no saco) ou todos apertarão botões?

Em todo o Estado de São Paulo, a Secretaria de Assuntos Penitenciários estima a existência de 158 mil internos (Ninguém estima mais os presos do que seus familiares e a turma dos direitos humanos – trabalho meritório, mas capenga, porque o Estado não faz a parte dele na recuperação. Basta ver quantos voltam.) Só essa população carcerária pode eleger quatro deputados estaduais e dois ou três federais.

Os internos da antiga Febem, hoje Fundação Casa, somam mais ou menos 6.900. Há dois anos eram 5.400. Os entendidos se cercam de jargões forjados nos enfrentamentos da Libelu para explicar o aumento: faltam ‘políticas públicas’; a ‘sociedade civil organizada’ não participa; ‘é resquício da política neoliberal’; 89% deles tem mais de 16 anos, ‘vítimas do capitalismo que esgarça o tecido social neste país’… Não faltam políticas públicas, faltam homens públicos, o resto é fruto da indigente formação “4P”: palestra, panfleto, palanque e passeata. E quem tem mais de 16 não votará. Portanto, “Desliga 16”.

Urge que Ibope, Sensus, Vox Populi, Vox Wagen, Gallpup e quejandos façam pesquisas de intenção de votos entre os condenados, principalmente para deputados estaduais, federais e senador. Pelo menos, a “sociedade civil organizada” saberá em quem votar. Ou não… Que as ongues da vida e as entidades de direitos humanos defendam essa causa. Os presos tem direito à liberdade de expressão ou votar não é um direito humano, embora haja tantos desumanos lá dentro?

Pregado no poste: “Vote nulo, em legítima defesa”

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