Vire o disco!

Um dia, no curso de jornalismo do Estadão, perguntei à “classe” se alguém tinha vitrola em casa. Os que não riram de mim perguntaram o que é vitrola. O tempo passa e as coisas mudam de nome para continuar a mesma coisa… Minha amiga Cecília Thompson Guarnieri, fundadora do lendário Teatro de Arena, me contou que para se livrar da neta, que insistia num mesmo assunto, exclamou: “Vire o disco!”. É que a Cecília e eu somos do tempo em que o disco tinha dois lados e se fosse um velho 78 rotações, só uma música de cada lado. E aí a conversa viajou no tempo.

Tempos do ‘78’, de cera de carnaúba, ainda antes do vinil de que eram feitos os long plays. Mas vamos ouvir a Cecília falar de suas lembranças e filosofias em torno das velhas bolachas pretas que embalavam as festinhas de antanho. Fala Ciça:

“As reuniões eram animadas pelo ‘picape e seus negritos’, hoje substituídos pelos VJs. O ‘78’ foi um fator moralizante daqueles bailinhos. A música não durava mais do que três minutos, nem dava tempo de aumentar a temperatura entre os casaisinhos que começavam a se agarrar, no embalo do fox, do bolero, do samba-canção… Tinha de virar o disco. A mãe aproveitava para entrar com uma bandeja de biscoitos e guaraná, esfriando o ânimo da molecada. Também não dava tempo para sentir nem saber o que havia na ‘zona sul’ dos garotos. Eu mesma só foi descobrir aos 19 anos, quando me casei com o Gianfrancesco… Tempo em que as meninas levavam salgadinhos e os meninos, Q-Suco, quando as festas eram na casa de família. A Cuba-libre ficava escondida. O ‘78’ e a fugacidade das músicas foram os grandes responsáveis pela forma comportada dos parzinhos. E a cada dez discos, era preciso trocar a agulha. Aí, pai, mãe ou tio vinham para esse ritual e acendiam a luz.”.

Cecília, com licença. Por causa desse ritual, um bailinho acabou mal certa vez numa casa da Rua Saldanha Marinho, em Campinas. Quando o pai da menina entrou na sala para trocar a agulha e acendeu a luz, ela dizia ao parceiro: “Você fica mais bonito sem óculos.”. E ele respondeu: “É que você nunca me viu pelado…”.

Pregado no poste: “Brasília, uma cidade cheia de ninguém”

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