Vênus era outra

Esperando o resultado do vestibular? Não… ela é muito nova. Mais do que as mãos dobradas escondendo os lábios e marcando o olhar ansioso, o fotógrafo Ari Ferreira conseguiu captar a angústia d’alma da menina Dyane Rico, em cores, na primeira página do dia 14. Parece no limiar de algo que mudará seu destino e o destino do mundo. Ainda se vêem jovens em suspense como Dyane, no começo de cada ano, vasculhando a lista de aprovados, roendo as unhas – belas jovens, como Vênus, que, dizem, também roía as unhas e deu no que deu. Roeu até os braços.

Naquele instante, o futuro de Dyane não estava na universidade, mas em seu próprio corpo, no “universo do seu corpo” – uma profecia de Taiguara feita para ela. Dyane esperava o resultado do teste de medidas da etapa regional do “Dakota Elite Model Look 98” – trampolim para modelos e manequins debutarem no elenco da agência Elite, de John Casablancas. O cenário não era o saguão da Pucc nem da Unicamp, que reúne cabeças, mas o Palicari Sport Bar, palco da competição, que reúne… corpos. No futuro delas, em vez de laboratórios de pesquisas e bibliotecas, passarelas do mundo. Cruel desafio. Para vencê-lo, é preciso contar com a generosidade da natureza – ganha quem tem, não quem sabe. De qualquer forma, na encruzilhada desses dois caminhos, se não tiver cabeça, o corpo padece.

A angústia da Dyane mexeu comigo. E se ela não fosse bonita? Num país como este, em que Vinícius decretou que “a beleza é fundamental”, qual o futuro das feias? O sonho da busca da formação e do conhecimento acabou. Trabalho? Onde? Como sobreviver ao diploma? Que valor se dá a quem sabe? E que valor terão elas quando a passarela terminar?

Na idade da Dyane (e eu já tive a idade dela), corpos e rostos lindos de Campinas nem sabiam o que era ser modelo. Manequim, para elas, eram estátuas de louça e gesso, expostas nas vitrines da Casa Anauate, vestindo a “última moda”. Quem as conheceu sabe que tenho razão: Regina Duarte, Eliane Aparecida Torres, Zezé Laubstein, Carminha Ramasco, Regina Elizabeth Araújo, Sílvia Melchert, Lina Rosa, Vera Blascovi, Shirley Correia, Sueli Sauan, Sueli Gianmarco, Abigail Bonas, Jóia Eliezer, Beth e Heloísa Paes Portes, Tânia e Telma Carneiro, Lúcia Helena Mirante, Maria Amildes, Juary Grimaldi, Beth Guido Rossi – na passarela, nem precisariam desfilar. Bastava um cartaz: “Showvendo estrelas”. Eram algumas das “Vênus” da cidade.

Tempos de concurso de “miss”, que mexiam com a curiosidade, mas não faziam a cabeça nem o corpo de nenhuma delas. Da eterna Martha Rocha à badalada Vera Fischer, muitas, mais bonitas do que todas, moravam em nossos bairros. Era só sair à rua, para ver beleza. Como hoje, afinal.

(Certa vez, um grande estilista francês disse ao meu irmão Roberto Godoy que as mulheres brasileiras são as de corpo mais lindo do mundo, mais belas do que as italianas, mais fascinantes do que qualquer roupa que as vista. “Aqui, encontramos uma Cindy Crawford a cada quarteirão”, afirmou. E eu me lembrei da Twiggy, a modelo dos anos 60s, também alemã, definida pelo homem brasileiro como uma grande “nadadora”, posto que “nada de costas e nada de frente”…)

Pregado no poste: “Horário político – em vez de piratas no rádio, rádios-piratas”

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