Vamos dar uma volta?

Faz tempo que a gente não dá um passeio por Campinas. Você se lembra desta cidade? Era um espetáculo, fale a verdade. Pois é, recebi esta semana dois convites, verdadeiros desafios, para voltarmos aos tempos em que Campinas era uma feliz cidade.

Primeiro, veio o do senhor Cinezio Eugênio dos Santos, mineiro de Jacutinga, “naturalizado campineiro”, como ele diz, com orgulho de… campineiro, uai! Depois, o da Flávia Teixeira de Camargo Vinícius da Silva, campineira da gema, “quatrocentona” – não, a Flávia não tem 400 anos, mas os primeiros Teixeira de Camargo, certamente, vieram na caravela de João Ramalho. É uma pena, queria estar naquela viagem com eles. Já imaginou que aventura? Agora é bem mais fácil, você não acha Amyr Klink?

O Cinezio mora na Avenida Ângelo Simões, ali na Vila Marieta. (Antigamente, a gente dizia “lááá na Vila Marieta”, agora ela fica ali…). A Ângelo Simões passa perto da igreja de Santo Antônio, não é, amigo? Aquela de torre azul, a caminho do cemitério da Saudade. Que saudade! Saudade do cemitério, não da avenida. Eu subia a Rua Zé Paulino, pegava a Saudade até ali e descia rumo ao Jardim Nova Europa, para namorar. Nunca fui assaltado. Na única vez em que dei de cara com um homem armado na vida, numa noite escura em que só a arma dele brilhava ao luar, ele fugiu de mim e eu dele. Pelo menos, foi a explicação do cobrador do ônibus, quando me viu branco, quase, quase, fazendo nas calças. Dava medo — a casa da namorada ficava nos fundos do cemitério. Fico imaginando: “Hoje, não vou a pé até lá mas nem…”.

Esse mineiro “dos bão” já curtiu Campinas mais do que muito campineiro “bão de bico”. Fala das matinés do Regatas com a orquestra do Birico. (Cá entre nós, Cinézio, era o arrasta-pé favorito do Renato Otranto, repórter aqui do Correio). Ele continua curtindo: “…dos tempos em que nem se falava em maconha e outras porcariadas; tempo dos bailes de formatura com traje a rigor, gravata borboleta, lenço no bolso. Tempo em que se podia sair dos bailes de madrugada e… incrível, voltar à pé para casa, sem medo de assaltos (não falei?). O máximo que se bagunçava era apanhar o pão e leite das casas. Lembra-se do tempo em que se entregava pão e leite em domicílio?” E arremata: “Campinas andava de bonde, trabalhava e vivia feliz.”.

Acho que a Flávia é bem mais nova do que a gente, Cinézio, mas também sente Campinas nas veias. De tanto pesquisar e ouvir histórias dos tempos em que isto era uma cidade, diz que se sente como quando ela “possuía sete automóveis e muitas serenatas”. Menininha ainda, conheceu o restaurante Armorial; dançou nos bailes do Tênis; tomou chá no hotel Terminus; freqüentou o Café do Povo (será que ela fugiu dos “boys da estátua” que azucrinavam a paz do maestro?). Deve ter comido sanduíches do Jânio, no Ponto Chic, e comprado um belo vestido na Firenze. Ou na Casa Etam? Curiosa, dava uma espiadinha na boate El Cairo, confessava os pecados para o monsenhor Lázaro Mütchelle, na igreja do Carmo, tomava um sorvete da Donney à sombra do Alecrim no Largo da Catedral, pedia a benção a Dom Nery e ia pra casa, levando garrafinhas de iogurte do bar Copacabana.

Uma dica para o Cinezio e para a Flávia. Um grande mestre, o professor Amaral Lapa, da Unicamp, que gosta desta terra tanto quanto nós, escreveu há pouco uma obra de arte: “A cidade, os cantos e os antros”. É para ler em forma de oração.

Pregado no poste: “Saudosista é a vovozinha”

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