Vamos às compras?

“Sou um feliz operário, campeão da simpatia. Aumentei o meu salário… Subi de categoria. A razão do meu sucesso? Está na cara. Faço a barba todo dia com Gillette Azul”. O rosto bem barbeado é de um homem sorridente, desenhado com um martelo na mão (sem foice na outra) e chaminés ao fundo. Revistas Seleções, Manchete, Cruzeiro… Esse velho ‘reclame’ abre uma galeria enviada pelo grande amigo Orlandinho Ometto. E a seis mãos, ele, o Renato Otranto e eu começamos a vasculhar aonde comprar os produtos anunciados em Campinas de antanho.

Passeio rápido, posto que todo o comércio já vendia de tudo. A caixinha de Gillete e o aparelho Gillette Monotech, na Farmácia São Luís, ali na Conceição. “Não se esqueçam de cumprimentar os médicos Cunha Campos, Borelli e Mário Gatti, sempre sentados ali, naqueles bancões de madeira envernizada”, avisa o Renato.

Televisor Invictus, com “visão panorâmica”, na Casa Buffarah, Barão de Jaguara. E o Conga Esporte? “O calçado apropriado para o esporte” havia na Baby e Picolotto (na Treze), Casa Lord (José Paulino?) e até no Mercado do Sapato, perto do Mercadão, onde também se achavam galochas e “paragatas” Roda. “Todo mundo é gente moça, quando a calça é Far West. Feito de brim Coringa, não encolhe!” – também no Mercadão, nas feiras e na Ezequiel.

Margarina Vegetal Saúde, no atacadista Roque & Bassi, da Costa Aguiar, ou na Seleta, da Barão de Jaguara. Podia pagar com cheques dos bancos Ítalo Belga, Segurança e Inco. “É tão delicioso! Crush!”. No antigo Ponto Chic, ao lado do colégio Cesário Motta, e no Bar do Meio, entre Bernardino de Campos e Regente Feijó.

O liquidificador do seo Waldemar e da dona Lita, o Walita, “com copo de vidro refratário ao calor”, era vendido na Eletrorádio, onde trabalhava dona Antonieta Gioso, e na Casa Assumpção, do seo Lotufo.

Depois da Crush, que patrocinava o “Crush em Hi-Fi”, com a Celly e o Tony Campello, na Record, e da Seven Up, que bancava o Capitão 7, no mesmo canal, veio a Pepsi Cola (“grande e gostosíssima!), conhecida no Sul, novidade em São Paulo, dominada pela Coca (Cola, eu disse Cola!) e pelos guaranás. A Pepsi chegou pelo Giovanetti, pelo Ponto Chic, da praça Antônio Pompeo, e pelo Bar do Arlindo, goleiro do Guarani, ali perto da Livraria Vamos Ler. O Sabonete Gessy patrocinava o “Telefone pedindo bis”, na PRC-9, com o Paulo Silas, e era “o preferido por 82% das mulheres brasileiras”. A mesma Gessy fabricava o sabão em pó Rinso, aí em Valinhos. As mães comparavam a brancura das camisas dos pimpolhos e concluíam: “Brancura Rinso, porque Rinso lava mais branco.”

Nossa! Abrem-se as cortinas vermelhas e brilha, prateado, um Cometão Coach 1954, “na linha Rio — São Paulo, com ar condicionado e revolucionário sistema de suspensão a ar comprimido!”. Lembram? Ele saía da Campos Salles, ao lado do Expresso Brasileiro, do seo Heitor Beltrão, parava na frente da Estação da Paulista e seguia rumo à recém-pavimentada Anhangüera.

“Resolvo mecanicamente e matematicamente o seu problema… com a moderna máquina de somar Ten-Key, da Burroughs!”. Era aquela calculadora com rolinho de papel, que imprimia as contas de somar, dividir, multiplicar, diminuir e só. Raiz quadrada era muito para a ‘cabeça’ dela. Maior sucesso da Casa Otranto, Barão, 1.389, do seo João e do seo Hamleto Otranto. “À vista ou a prazo, seo Hamleto?” “Otranto faz!”

“Uma tradição de bom gosto! Cigarros Hollywood!”. Uma jovem parecida com a Patrícia Pillar, daqui a 200 anos, segura o pito perto da boca.

Não conseguimos nos lembrar onde vendiam os outros produtos anunciados: Vemaguete, Rural Willys, Renault Dauphine e Studebaker. É que naquele tempo, o Renato e eu andávamos de bonde. Quando faltava grana, a gente pegava as carroças do Dito Colarinho, Arroz e do Quim Fernandes. Esse seo Quim, bem velhinho, passou a fazer e servir um café gostoso na Rádio Cultura. Um dia, o Roberto Ginefra e o Chico de Assis mostraram uma revista Playboy para o seo Quim e ele desabou na poltrona! Coitado, quase morreu. De saudade…

Pregado no poste: “Vende-se lanterna Rayovac – no Brinco de Ouro”

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