Utopia ontem, hoje e sempre

O Eustáquio Gomes diz que Balzac o colocaria num romance; Diderot gostaria de tê-lo a serviço de sua enciclopédia e eu gostaria de vê-lo num oráculo. Nosso Pedrinho Bondaczuk, que chega todas as manhãs à nossa casa, de espírito aberto nas páginas do Correio, creia, é daqueles capazes de filtrar o mundo para nós. Tenho a impressão de que ele está sempre de binóculo e estetoscópio — ele é o espelho do cotidiano. Mas todos podemos confiar em suas observações.

É dele essa conclusão: “O escritor travestido de jornalista muitas vezes se rebela com sua tarefa de tentar interpretar a realidade, que de tão fantástica, chega a humilhar a ficção”. Outra: “Esse é o objetivo também do comentarista: extrair riqueza da miséria, nobreza da canalhice, ética da imoralidade”. E agora chega o Pedrinho, nos abrindo vários atalhos em direção à utopia (um lugar que não existe), em seu livro “Por uma nova utopia”. Verdadeiro, como sempre: “Nesse seu mundinho restrito, mas perfeito, a moral seria baseada estritamente na virtude; o trabalho seria dever de todos e distribuído eqüitativamente e o tempo de lazer, empregado pelos homens no enriquecimento cultural”. Porém, ele parece desencantado ainda na mesma linha: “Esperava-se que uma sociedade, que pelo menos se aproximasse disso, viesse a existir neste século XX. Mas o que se viu no seu transcorrer? Um avanço tecnológico fantástico acompanhado de uma regressão no comportamento às fronteiras da barbárie”.

O Pedro vasculha, mergulha e às vezes sobrevoa o Brasil e o mundo atrás desse “mundinho”, lugar que não existe, sentindo a fome das crianças, a droga nos jovens, a repetência escolar, o fanatismo, o medo, o poder, a família — a saga do homem, enfim.

Só para comparar a imbecilidade humana num intervalo de 100 anos, a respeito do que o nosso Pedro fala da desnutrição infantil e suas doenças, lembro de duas tragédias. Rio de Janeiro, fim do século passado: para combater a peste bubônica, o governo estimula a matança de ratos e paga 300 réis por bicho morto entregue no serviço de saúde pública. Além de matar, o povo começa a criar ratos para vendê-los ao serviço de saúde pública. Manaus, outro dia, fim deste século: mães que participam do Programa do Leite da Prefeitura deixam, de propósito, os filhos com idade entre seis meses e dois anos desnutridos, para continuar recebendo oito pacotes de leite e uma lata de óleo de graça, todo mês. As mães submetem os filhos à fome ou dão purgante para provocar diarréia e a conseqüente perda de peso, no dia em que as crianças são pesadas no posto de saúde.

E o Pedrinho assinala no livro:… “O Brasil — provavelmente recordista mundial em desperdício — está desperdiçando, sobretudo, entre tantos outros bens, aquilo que tem de mais precioso: o futuro. Joga fora a infância do seu povo”.

Enquanto houver quadrilhas governando o País, a utopia sonhada pelo Pedro não acontecerá. Acaba de acontecer no Piauí e deu no jornal: “A Câmara Municipal de Água Branca aprovou por unanimidade e sob protesto do povo, projeto de lei concedendo aos próprios vereadores uma pensão vitalícia, extensiva aos seus descendentes e ascendentes. De acordo com a matéria, já publicada no Diário Oficial, os vereadores com quatro mandatos consecutivos estão automaticamente aposentados com salário integral, para o resto da vida, sendo que o mesmo direito é válido para os herdeiros”.

PS: Pedro, quando você escreveu “extrair riqueza da miséria”, pensava em qual político? Todos?

 

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