Uma (bela) vida em três segundos

Segunda-feira, a notícia triste chegou pelo telefone. Era o Roberto Godoy, de São Paulo: “Ô! Onde você estava? O Vartão morreu. Tô ligado aí desde cedo…”. Betão não precisou dizer mais nada. Ela sabia que o que dói em mim é igual ao que dói nele. E em todos os campineiros de bem.

Aprendemos muito com ele, posto que esse pai, amigo, irmão, colega, tudo junto, é o Vartão Bellenzani, com quem, graças a Deus, convivemos anos e anos na redação aqui do nosso “Correio Popular”. Sua coluna, “Três Segundos”, agora no “Diário do Povo”, vinha do tempo em que jogador de basquete mais de três segundos no “garrafão” era punido. Na festa do nosso “Culto à Ciência”, no ano 2000, lá no ginásio da Unicamp, ele e o insuperável Renato Righeto, melhor juiz de basquete da história, estavam juntos. Comentei com aquela santa que mora aqui em casa: “Nossa! Quanta campineiridade naquela mesa…”

Tinha a dignidade de um mestre-escola.

Nunca vi esse eterno jovem de mau humor, mas sempre disposto a ensinar. Sorrindo, brincando e ensinando. Vocês acham que alguém é capaz de se esquecer desta lição? “Esporte começa com ‘A’, de atletismo; depois, pode ser qualquer ordem, porque o atletismo é o esporte-base. É só seguir: ‘B’, de basquete, beisebol; ‘C’, de ciclismo; ‘D’, de dardo, disco, decatlo; ‘E’, de estudo e de esgrima; ‘F’, de futebol; ‘G’, de golfe; ginástica; ‘H’, de hipismo, handebol; ‘I’, de iatismo; ‘J’, de judô; ‘L’, de luta greco-romana; ‘M’, de maratona; ‘N’, de natação; ‘P’, de pólo-aquático; ‘Q’, de queda-de-braço, quatro por cem; ‘R’, de remo, regata; ‘S’, de squash, salto triplo, surfe; salto com vara; ‘T’, de tênis, tênis de mesa, tiro…”.

Peço licença para completar: ‘U’, de unanimidade, que ele sempre foi entre nós, e ‘V’, de Vartão, em homenagem a quem cobriu a primeira edição dos Jogos Abertos do Interior, na cidade de Monte Alto. E ele me contou que a história dessa competição é uma história de amor. Babi Barione, o criador, namorava a filha do prefeito. Para agradar ao futuro sogro, inventou de fazer os jogos lá, só para não ficar longe da amada e, ao mesmo tempo, projetar a cidade. Vartão, que sempre incentivou os jovens, apostou na idéia, ajudou a organizar e foi o primeiro jornalista a escrever sobre a aventura pioneira.

Um dia, não faz muito tempo, ele ainda brincou comigo: “Veja, era o ano de 1936. Enquanto Hitler fazia da Olimpíada de Berlim palco para o seu ódio racial, aqui, a caipirada fazia uma competição que nasceu por causa do amor…”

Assim era o nosso Vartão.

Pregado no poste: “Alegria, gente! Ele só pediu tempo…”

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