Um livro para ouvir e gargalhar

Era o melhor humor do Brasil — aquele humor do rádio, que sobreviveu pouco na televisão, porque tinha qualidade. Humor que desapareceu com Vitório e Marieta, do Murilo Amorim Corrêa e Maria Teresa; da Santina e Epitáfio, da Nair Belo e do Renato Corte Real; de Walter Stuart, da ‘Catifunda’ Zilda Cardoso, do Golias, do Chico Anysio e dos Trapalhões de outrora; de Ankito, Otelo, Chocolate, José Vasconcelos, Durval de Sousa, Rubens Moral, Arrelia, Pimentinha, Jô Soares, Otelo Zeloni e, com licença poética, Dercy e Costinha. Humor de Times Square, da Família Trapo, da Praça da Alegria do Manuel da Nóbrega, e do Show União (lembra?).

Tão bom, que o próprio Chico Anysio, tão pra baixo hoje, reconhece no prefácio: “… o povo brasileiro que, tanto gosta de humor, merecia (na sua totalidade) o prazer de ouvir e ler este trabalho que, antes de mais nada, dignificou o humorismo brasileiro. Nunca mais, nenhum outro programa conseguiu alcançar o nível. E olha que nós tentamos…!” Para o Jô, “Mesmo hoje, seria de vanguarda e avançado no tempo.” E o José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (é, o Boni, sim!), enaltece: “Um programa imperdível para todos. Um humor limpo, ingênuo e mágico. Este livro é um justo reconhecimento aos mais importantes humoristas de toda a história do rádio brasileiro.”. Eu assino embaixo o que estes três grandes escrevem.

É a PRK-30, o mais importante programa de humor do rádio do Brasil, extinto há quase 40 anos, que acaba de ganhar um belo livro de autoria do jornalista Paulo Perdigão. Vem com dois CDs, que trazem gravações de vários dos 800 programas que foram ao ar na finada Rádio Mayrink Veiga e da lendária Nacional do Rio, de 1944 a 1964.

Recomendo uma leitura obrigatória e uma audição cautelosa. Sem exagero, as aventuras da fadista Maria Joaquina Dobradiça da Porta Baixa, e dos ‘locutores’ Megatério Nababo d’Alicerce e Otelo Trigueiro, na interpretação dos inesquecíveis Lauro Borges e Castro Barbosa, quase me matam de dor de barriga de tanto rir. Juro, tive de parar na metade do primeiro disco e deixar para completar o prazer de ouvir, no dia seguinte. A um só temo é mágico e triste descobrir que já houve talento no humor do Brasil. Em mais de duas horas, não se houve um palavrão, nenhuma piada de duplo sentido, e muita, mas muita graça. Tempo em que havia inteligência e respeito à inteligência do povo nessa difícil arte de fazer rir.

Pregado no poste: “ A radio Morena continua loira burra?”

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