Um Lattes para Nobel

Havia momentos em que ele só se entendia com Deus. Com Deus e o Roberto Godoy, seu repórter favorito. Mas foi para a jornalista Tatiana Favaro, que ele abriu seu coração pela primeira – e última – vez, na histórica edição de agosto de 2001 do “Jornal da Unicamp”. Para o Godoy, ele deu um furo mundial, em 1969, aqui no “Correio Popular”: a descoberta da “bola de fogo”, o novo estado da matéria. Para Tatiana, enfim, o outro grande furo:

Tatiana Fávaro: Se a teoria do Big Bang ainda é aceita, não em sua essência, mas em algumas nuances, podemos questionar de onde veio a matéria antes da grande explosão…

Lattes – Deus criou. E eu não brigo com astrônomos por isso, porque eu não os levo a sério.

Como nunca fui chegado ao méson pi, a essa “bola de fogo”, às placas de emulsão nucleares, píon, partículas subatômicas da catarse nucelar, nem ao efeito do rabo da lagartixa no trinco da geladeira, prefiro ficar com o César Lattes moleque que eu conheci, pelas ruas da Cidade Universitária, da Unicamp e de Campinas. Nunca abri a boca para falar de física com ele, muito menos de educação física. Morria de medo de exibir minha estupenda ignorância. Quando ele percebia que o interlocutor não entendia nada, passava a brincar. Um grande jornal paulista até publicou que a energia desprendida pela tal “bola de fogo”, descoberta pelo cientista, transformaria “sonhos em realidade” – dito depois de o coitado não entender bulhufas do que se tratava.

(Isso é falta de respeito do chefe de reportagem com a fonte: onde já se viu mandar alguém despreparado para falar com quem quer que seja? O repórter Antônio Carlos de Júlio tem uma passagem interessante sobre isso. Num fim de tarde, exclamou: “Estou realizado na vida. Pela manhã, entrevistei o professor César Lattes. À tarde, fui falar com o cabo Carvalho, da Polícia Militar. Juro que eu não entendi nada do que o Carvalho me disse!).

Mas era bom conversar com o mestre. “Entrevista para você? Dou, mas antes, vamos tomar uma batidinha de losna?”. Ai de quem recusasse! E seus cachorros? Houve um que se chamava Nixon, e foi colocado numa carteira durante a aula de um professor que tinha grande “admiração” de Lattes. Outro, ainda durante a ditadura militar, mudava de nome de vez em quando: Humberto, Arthur, Emílio, João Batista…

Quando o professor Pinotti elegeu-se reitor da Unicamp, recebeu em sua casa uma repórter e uma fotógrafa da revista Istoé. Lattes estava lá. E a retratista se coçava na virilha de forma enfurecida. O cientista se incomodou:

— Minha filha, isso é micose.

— É professor, mas não passa!

Durante uma hora, Lattes ficou a ditar receita de chás e compressas para a menina passar no lugar. Pinotti e a repórter esperando, até terminar a ‘consulta’. E alguém teria coragem de interromper aqueles dois?

É o único físico brasileiro citado na Enciclopédia Britânica, honraria para a qual nunca demonstrou dar muita importância. Nem eu. Lattes também foi indicado três vezes ao Nobel de Física. Também nunca dei bola para isso. Mas para alguns, o Nobel para um brasileiro é tão importante como um Oscar ou como foi a vinda do Frank Sinatra. Agora, numa notícia sobre sua morte, está escrito: “Diz a lenda que no Museu Neils Bohr, em Copenhague, Dinamarca, há uma carta em cujo envelope está escrito: ‘Por que César Lattes não ganhou o Prêmio Nobel. Abrir depois de 50 anos da minha morte’. Como Bohr morreu em 1962, o mistério só será desvendado em 2012.”

Mas eu sei o que está escrito nessa carta: “Quando o grande cientista brasileiro César Lattes morrer, quero que seja criado um prêmio mundial com o nome dele. Faço questão de ser o primeiro ganhador. Assinado, Alfred Nobel, post-mortem.”

Pregado no poste: “Nos filmes, os americanos sempre vencem; já no Iraque e no Vietnam…”

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