Um guaraná e sete copos

Esse Francisco Glícério de Cerqueira Leite, de sobrenome pomposo e vida dedicada ao Brasil, era da pá virada, como diria minha avó, que o conheceu e guardou algumas de suas histórias de bastidores. Além daquela estripulia em nome da república, cometida por ele em São José do Rio Pardo e narrada aqui pelo Rogério Verzignasse no feriado do dia 15, nosso herói, patrono de nossa avenida mais importante (ainda é?) fez fama na cidade.

Republicano fanático, radical xiita, diriam dele, se vivesse hoje. O pai, seo Antônio Benedito, e a mãe, dona Zelinda Conceição, eram donos da fazenda Pau d’Alho, aí na estrada de Mogi Mirim. Mas Glicério não era rico. Quando o pai morreu, em 1861, tinha 15 anos e não conseguiu terminar o curso de Direito na São Francisco. Foi tipógrafo, escrevente de cartório, professor e rábula – advogado não formado. Quando se aproximou dos republicanos, cresceu e ganhou importância. Em 1886, foi vereador em Campinas. Antes, em 1873, esteve na Convenção Republicana de Itu e fundou aqui a Gazeta de Campinas. Estava com Deodoro, quando ele proclamou a República. Primeiro ministro da Agricultura do novo regime, foi eleito deputado por São Paulo, na primeira Constituinte, e senador. Morreu em 1916.

Nas Campinas daquele fim de século, ele e o naturalmente monarquista barão de Itapura viviam às turras. Inimigos cordiais, porque um não vivia sem outro. Adoravam se provocar. Um dia, Glicério precisou de uma ama-de-leite e o barão ofereceu uma de suas escravas. Ele aceitou, mas para não deixar de provocar, propôs comprar a negra. Surpresa! Ela recusou. Preferiu continuar escrava do barão a viver livre na casa de Glicério. E ainda dizem que o barão era cruel…

Outra história que minha avó contava dele é sobre sua fama de “mão-de-vaca”. O inesquecível Renato Corte Real, campineiro da gema, também sabia dessa história e fez uma piada, no tempo em que ele e a Nair Bello protagonizavam a Santina e o Epitáfio, na velha TV Record. A Santina pediu ao Epitáfio que servisse as visitas: “Um guaraná e sete copos…”. Na casa do Francisco Glicério, dizem, a bandeja vinha com dez cafezinhos, em meia xícara, e uma colherzinha”. Ordem do patrão…

Pregado no poste: “Pelé ou Maradona? O que é ‘Maradona’?”

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