Um canhão no pé d‘ouvido

 

Hoje é dia de palestras. A boa italianada fica perdidinha. Os dois mais importantes times da colônia jogam daqui a pouco – os italianos mineiros e paulistas. Vai ser logo depois da macarronada com porpeta, polenta e pollastro. Antes da Segunda Guerra (a Terceira já está quase no fim; nós, também.), era Palestra lá, Palestra cá. Depois, nada de “Mucholino” por aqui. O Palestra daqui, de periquito, virou porco, e o de lá, raposa.

“Ma perchè, Palestra?” O Aurélio ensina: “conversação; conferência ou discussão sobre assunto cultural; na Grécia e Roma antigas, lugar onde se faziam exercícios ginásticos.”. E discussão é com os italianos, mesmo. Discutem com os braços, gestos largos, já reparou? Não conseguem se afogar… Enfim, palestra é quase um debate, mas entre italianos é bate-boca.

Hoje, nem é bom falar. O Palmeiras não tem craque e o Cruzeiro, além de não ter, é comandado por políticos. A festa será das duas torcidas: seja qual for o resultado, tudo acabará em “P”: pizza, porpeta, polenta, pollastro, partita de pallone e pernàchia, porca pipa!

Esses dois palestras – o Palmeiras já foi azul, um dia, igual à sua “azurra” – tiveram grandes batedores de falta. Nelinho, do Cruzeiro, nossa! No Palmeiras, duas legendas: Jair da Rosa Pinto e Romeiro. Dois canhotos. Romeiro chutava como Didi, mestre da “folha seca’, mais enviesado do que o olhar da Capitu. Jair, de bico. Em 1959, esses dois craques foram adversários, decidindo o Campeonato Paulista. Jair, no Santos, e Romeiro, no Palmeiras. Foi do Romeiro o gol de falta que o goleiro santista Laércio e a barreira nem viram se havia bola. Palmeiras supercampeão: 2 X 1.

Acho que foi nesse mesmo ano. O Santos esteve infernal e não merecia perder o título. Tinha enfiado 12 na Ponte Preta e, está meio nebuloso, parece que dez no Guarani. No ‘Brinco de Ouro da Princesa’. É isso! Foram dez gols e eu tinha dez anos. Um amigo, repórter da Rádio Cultura de Campinas, irresponsável como ele só, me levou para o gramado. Para enganar os fiscais da Federação Paulista, eu entrava carregando microfone volante (pesava sete quilos!) e toda a tralha: fios, cabos, extensão, tomada…

Fiquei de cócoras (não é mais fácil escrever ‘de coque’?) atrás do gol do Guarani, defendido por Nicanor. Assim, meio de lado, para que a rede não me atrapalhasse a visão. Juro que até hoje não sei quanto estava o jogo, quando Pepe, o chute mais forte da história do futebol, bateu aquela falta. A última imagem que tenho daquele jogo é a dos meus pés para cima, minha cabeça para baixo e um par de óculos, aro de tartaruga, que não encontrei mais. Escureceu.

Acordei no vestiário. Eduardo Vasconcelos, médico do Guarani, parecidíssimo com meu pai, me estapeava o rosto. Um cheiro horrível de amoníaco sufocava. Pensei: “Morri. Ou enlouqueci. Meu pai no Brinco!? Ponte-pretano doente, jurou nunca entrar aqui…” Morreu sem entrar. O tiro do ‘Canhão da Vila’ pegou no ouvido direito, que nunca mais foi o mesmo. Um dia, escrevi essa história e o querido Pepe, já técnico de futebol, ligou em casa: “Então foi praga sua! Você não ouve pelo ouvido direito; eu sou surdo do esquerdo. Vamos fazer negócio?”

Grande Pepe!

Pregado no poste: “A pista de caminhada do Ademarzão precisa de reforma”

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