Um campineiro cão de guerra – fim

Xande, numa daquelas corridas dos mercenários para atacar o então chefão de Angola, passou atrás de uma bazuca no momento do disparo. “Foi derrubado com um buraco no abdômen”, escreve sua tia Marina Cabral no livro “Xande, mito, herói ou bandido?”, lançado em 1987.

Conte mais Marina:

“Os olhos de Johnny, hipnóticos e frios, brilhavam na escuridão. Nos feridos, dava o tiro de misericórdia, e abatia os que tentavam fugir. O ‘presidente’ Kito, a família e seus asseclas saíram com as mãos à cabeça. Rendiam-se para não morrer. Foram todos fuzilados. A empreitada fora bem sucedida, com um saldo enorme de mortos para o general. Entre os mercenários, duas lacunas: os dois irmãos.

Apesar de perceber Xande inconsciente, com o ventre aberto, Johnny não se preocupou. Pressentia sua imunidade a qualquer tragédia. Pressentia, também, que o diabo deveria ser seu grande cúmplice. Ou Deus.

Improvisaram uma maca e recambiaram-no ao navio com o maior cuidado. Xande abriu os olhos. Pensou ter cochilado. De repente, os raios de sol se projetaram e ele estremeceu de frio. Parecia-lhe estar rolando numa queda vertiginosa. A dor no ventre era cruciante e ele desmaiou novamente.

O médico de bordo fez os primeiros curativos. No primeiro porto, atracaram e ele foi levado a um hospital. Sem um mínimo de recursos e assepsia. O organismo privilegiado resistiu. Em quinze dias, estava pronto para reiniciar a viagem. Ainda um pouco fraco pela perda de sangue, caminhando com dificuldade, mas caminhado.

A volta foi mais curta: trinta dias. Quando chegaram a Buenos Aires, estava recuperado. Com US$ 10 mil no bolso. Dissipou-os em pouco tempo, com muita bebida, mulheres e jogatina.

Glória negligenciara seus cuidados com ele. Descobriu, um pouco tarde, que Xande a usara para viver nababescamente. Com os dólares ganhos, sumiu de seu apartamento e ela só o via na boate, cercado por mundanas. O orgulho venceu o amor. Em seu realismo, aceitou ter perdido a batalha. E o descartou para sempre.

A saudade da Pátria apanhou-o. Seu coração encolhia ao se lembrar da primeira professora, Mercedes, da mãe, dos amigos. As lembranças da fazenda do avô deixavam-no deprimido. Ficou enfarado de tanta boêmia, fornicação e tantos porres.

Voltou.

Sem se despedir de Glória, com o resto do dinheiro comprou sua passagem de avião. Chegou a São Paulo sem um níquel. Não se importou. Seus olhos estavam brilhantes. Ao sentir os pés fincados no chão pátrio, teve uma gana enorme de se abaixar e beijá-lo.

Só não o fez porque detestava se sentir piegas.”

Pregado no poste: “Quem quiser que conte outra”

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