Última viagem

Não tem jeito: depois dos bondes, seus motorneiros e condutores, em 1968, agora é a vez dos carroceiros e charreteiros com seus animais de estimação e exploração fazerem a última viagem pela cidade que ajudaram a construir. De uma canetada, seo doutor Hélio tirou da rua todos os bichos de carga. Já imaginou esta manchete: “Prefeito proíbe bichos em Campinas”? Todas as faculdades teriam de começar pelo segundo ano.

(Como? Eu disse “bichos”.)

Não dá mais: pesquisa nos EUA diz que cada cavalo faz seis quilos por dia. Quanto não sai, então, do búfalo, do boi e de suas respectivas esposas? Sem falar no trânsito, nos acidentes, nos maus tratos. É hora de homenagear carroceiros, charreteiros e seus rebanhos. Eram o táxi dos pobres, para quem faziam mudanças e levavam tanta tralha pra lá e pra cá. Quem não se lembra das carroças com a plaquinha do “Tudo serve”? Tinham pontos espalhados por toda a cidade, no Mercadão, na Estação da Paulista, no Largo do Pará – ainda deve haver algum bebedouro dos animais para contar a história deles.

Muitas histórias. Para esnobar os filhinhos de papai que chegavam ao volante dos automóveis para a aula no ‘Culto à Ciência’, Sidney Levy e eu alugamos a carroça do Dito Colarinho na Estação e fomos até a porta do colégio. Seo Dito, todo orgulhoso, de boné de maquinista, paletó, gravata borboleta e o chicote, que nunca usou. Cena inesquecível.

Eram cidadãos respeitosos e respeitados: Diógenes Gobbo, jornalista como poucos, lembra-se de que vinha de Americana com a mãe, para consulta com o dr. Marcondes Filho, no Vera Cruz – e percebia que diante do hospital, carroceiros reduziam o galope a um  lento “toc–toc–toc”, para não incomodar os doentes. Como faziam os cocheiros de Milão, para não perturbar o sono de Giuseppe Verdi, à beira da morte. As ruas em torno do hotel, que hospedava o gênio, eram forradas de feno, para silenciar o mais moderno meio de transporte urbano da época.

Seo doutor Hélio, aproveite o prazo que o senhor deu aos carroceiros, para promover pelo centro da cidade a última viagem dos que restam, saindo do Mercadão rumo ao bebedouro no Largo da Estação. Eles merecem. Para conduzir a “carreata”, tente saber do “seo” Armando, o verdureiro amigo das crianças. E o senhor verá muito marmanjo chorando de saudade e emoção.

Pregado no poste: “Perde quem reclama, vence quem corre atrás”

 

 

 

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