Tricolor por um dia

Antes que alguém amanheça com a boca cheia de formiga, vou contar. Há uma guerra surda na rede mundial entre um grupo de ilustrados campineiros, cada um defendendo as glórias de seus clubes de futebol. São mais ou menos mil pontepretanos de um lado, dois bugrinos de outro e no meio um torcedor do imbatível XXIII de Outubro de Lupércia do Sul (sei lá onde fica isso).

Então, você já sabe a causa, se algo acontecer contra alguém entre Mércia e Miguel Nucci, Cristina Blaya (o sobrenome mais bonito da história), Carlos de Paula, José Carlos e Luís Valente Sanches, César Galli, Guilherme Medyta, husmej@bol, Leonor Katayama, Lúis Roberto Finasi, Paulo Roberto Lavorini, Sérgio Rondino, Antônio Carlos Campos Leite, quinita@terra (mestra Quinita, até a senhora!!!), Sílvio Sardemberg, Guilherme Rivero de Toledo Santos… Faltam o Geraldo Trinca, para ser o “pontepretano 1001”, e a Regina Trinca, para aumentar de dois pra três a massa bugrina… (Afinal, o dia em que três bugrinos não valerem 1001 pontepretanos, o mundo acaba.).

É um tal de “Salve a Macaca” pra lá; “Aleluia ao Bugre” pra cá, que até parece campanha de alguma ONG de eco-chatos. Outro veio enaltecer Di Stefano, Puskas, Gento, Arakstain, Del Sol, os ‘merengues’ do Real Madri, nos tempos dos avós do Ronaldo Cicarelli e Roberto Carlos, o zagueiro.

(Não apareceu, ainda, nenhum torcedor do Mogiana, mas o Miguel Nucci ciscou por lá, no juvenil. Ele não se lembra da cor da camisa do Mogiana, mas não se esquece que a da meninada era roxa e amarela – talvez desbotada do preto e vermelho, após anos de uso pelos profissionais.)

Agora, com o São Paulo campeão paulista, lembro-me de que faz meio século que assisti a um jogo de futebol pela primeira vez. Birra do meu pai, pontepretano ‘doente’ contra um filho bugrino – ele me levou na marra ao campo da Ponte para ver a “Nega Véia” contra o São Paulo. (Falar nisso, todo pontepretano é ‘doente’ e todo ‘doente’ nunca foi bugrino.).

Com ajuda da Rose, do nosso arquivo aqui do Correio, revi a história daquela partida, jogada na tarde de 20 de novembro de 1955. A Ponte foi de Andu; Bruninho (falecido há pouco), Derém e Pitico; Carlito Roberto (pontapé só da correntinha pra cima) e Carlinhos; Noca, Nininho, Baltasar, Bibe e Friaça (fez o gol contra o Uruguai no Maracanã, na final da Copa de 50. Adiantou alguma coisa?). O técnico da Macaca era Jim Lopes.

Olhem o tricolor: Poy; De Sordi e Mauro; Pé de Valsa, Alfredo ‘Polvo’ Ramos e Turcão; Maurinho (ex-Bugre), Lanzoninho, Paraíba, Roque e Canhoteiro (grande craque!). O juiz foi o uruguaio Esteban Marino, que sumiu com a súmula que incriminava Garrincha, expulso na semifinal contra Chile no Mundial de 62. Não fosse Esteban Marino, Mané não jogaria a final contra os tchecos nem o Brasil seria bicampeão do mundo. A renda chegou a 186.665 cruzeiros velhos.

Já sei, estou enrolando. Então, lá vai: a Ponte ganhou aquele jogo por três a um, gols de Pitico, Baltasar e Nininho. Mas o São Paulo marcou primeiro, Lanzoninho. No meio das cadeiras cativas lotadas do campo da Ponte, um moleque de seis anos gritava de alegria, saudando o gol do São Paulo. Lanzoninho até veio ao alambrado agradecer a exaltação solitária e solidária daquele pirralho.

Na saída do campo, aquele bando de marmanjos me gozando, e o Nininho, amigo do meu pai, também veio ao alambrado: “Ei, garoto, vitória da Ponte é mais bonita do que as do Guarani!”.

Depois daquele dia, só entrei naquele campo por obrigação profissional. Em compensação, ao Brinco de Ouro só volto quando o Bugre voltar para a primeira divisão – do campeonato paulista.

Pregado no poste: “Lula, é mais seguro governar um povo desarmado?”

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