Tragédia no Largo do Rosário

A Copa da Suécia, em 1958, chegou pelo rádio. As narrações do Edson Leite, na Bandeirantes, devem ser as mais reprisadas de todos os eventos esportivos do passado – eletrizantes. Ele emocionava transmitindo até jogo de xadrez. A do último gol do Pelé na decisão, então, é tão bonita quanto o próprio lance. “Magistrais”. Imagens de qualidade, só um mês depois, com o filme do torneio, exibido no antigo Cine Santa Maria, depois Alvorada, depois… “The end”. O Mundial do Chile vinha uns três dias depois, em videotape, gravação conjunta Tupi e Record, com Walter Abrahão e Raul Tabajara. Mas graças à criatividade dos nossos narradores Alfredo Orlando e Luciano do Vale, ambos, então, na Educadora, Campinas pode ver os jogos da Copa da Inglaterra, em 1966. Para quem nunca “vira” nada, eles conseguiram uma façanha.

Armaram um telão maior do que um outdoor sobre a marquise da Campos Salles, no Largo do Rosário. Fundo verde simulando o gramado: balizas de escanteio, linhas laterais, divisória e de fundo, pequena e grande áreas, marca de pênalti, meia-lua, grande círculo e caroço do abacate. Tudo pronto, Alfredo de um lado, Luciano do outro. Cada um com uma lanterna na mão, atrás do telão. A luz vazava a tela verde e assinalava só o jogador que estava com a bola e sua posição em campo, seguindo a narração do Fiori Gigliotti, na mesma Bandeirantes, dona da Educadora e líder da “Cadeia Verde Amarela Norte-Sul do Brasil”. Deslumbrante, de embasbacar. Grande momento do rádio de Campinas, bem ali, como se homenageassem a “rádio janela”, precursora da Rádio Brasil, que funcionava, se não me engano, numa janela do Giovanetti.

A experiência da estréia, Brasil 2 x 0 Bulgária, empolgou a cidade. Só não deu para mostrar o sangue escorrendo das canelas de Pelé e Garricha. Seleção cambaleante de tantos coices, não agüentou o segundo jogo e a Hungria fez 3 X 1 na gente. Todo mundo quebrado: nos três jogos daquele Mundial, o técnico Feola usou 20 jogadores. Só Zito e Edu não jogaram. Estava armado o esquema para a Inglaterra, dona da casa, ficar com a Jules Rimet.

Na tarde brasileira de 19 de julho, tudo ou nada contra Portugal do técnico brasileiro Oto Glória. Jogo no Goodison Park, na Liverpool, dos Beatles. E o juiz, claro, o inglês McCabe. Nas portas do Café do Povo, só nos faltava rezar diante de uma das mais belas manchetes da imprensa brasileira, de Edgard de Oliveira Barros, para o “Diário da Noite”: “Pelé, jogai por nós”, na primeira página dos exemplares colados nas paredes. Quase mataram o “Rei”.  Rildo fez nosso único gol, Eusébio marcou o primeiro e o último para eles e Simões, o segundo.

Não me lembro, mas, acho, o “estádio” do Largo do Rosário fechou para o resto da Copa. Dia 25, Brasil e Portugal jogam, de novo, a última partida da primeira fase. E o telão já está armado, agora no Centro de Convivência.

Pregado no poste: “A história só se repete como farsa?”

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