Tragédia esquecida

 

A Andréa Guye e o Antônio Boscolo também seriam excelentes detetives, não trabalhassem no arquivo aqui do nosso “Correio Popular”. Mas a equipe deles é de fazer inveja à Julie Lescaut, Mário Fofoca, Sherlock, Poirot, Monk, Anne Frontier, Charlie Chan (lembra?), Mandrake (idem), Navarro… Desde criança, ouço falar numa tragédia no Largo do Mercado, pelos anos 40s. Consultei todas as bases, minhas e do antiquário Udine La Serra, mas a rede trouxe poucos peixes.

Falavam numa jardineira que pegou fogo e nela morreu muita gente presa na armadilha daquele arremedo de ônibus de uma porta só. Alguém do Udine lembrou-se de que, entre as vítimas, havia uma jovem que viera a Campinas comprar o vestido de noiva, para se casar dois dias depois, e ficou com o corpo entalado na janela, que, além de pequena, tinha ripas roliças de ferro – para ninguém pular sem pagar a passagem. Era tudo o que eu sabia e tudo o que eu passei aos dois guardiões da memória do “Correio”. Eles não disseram “Elementar, meu caro…”, mas prometeram achar a notícia.

Nem três dias se passaram e estava tudo à minha frente: “A pavorosa tragédia de ontem no Largo do Mercado” diz a manchete do “Diário do Povo” da sexta-feira, 10 de agosto de 1945. E acrescenta: “Nove pessoas morreram no trágico incêndio de uma jardineira. Sete feridos medicados no posto da Assistência. Um fósforo teria ateado fogo aos vapores de gasolina. Em apenas dois minutos a tragédia estava consumada.”. Pelas fotografias, a jardineira parece atacada por terroristas em Bagdá.

(Na mesma página, a boa notícia da volta do expedicionário campineiro José Maria de Camargo, que combateu na Itália durante a II Guerra; a doação à prefeitura, pelo sr. Joaquim Bento Alves de Lima, das terras do atual Parque Taquaral; e a apresentação de Elvira Pagã, a rainha do rádio, do humorista Príncipe Maluco, da rumbeira Neyde Furquim, do cantor de fox Jimmy Lester e da Orquestra Bandeirante no cassino do Grande Hotel Serra Negra.)

A jardineira das 14 horas, da empresa Carlos Leoni & Cia., ia partir para Paulínia. O motorista Carlos Leoni viu que o tanque de gasolina estava quase vazio e achou melhor encher. Sabe onde ficava a boca do tanque? Dentro do veículo, entre o segundo e o terceiro bancos! Com uma lata de 20 litros, ele abastecia, quando um passageiro acendeu o cigarro. Buuuum!

Morreram Doraci Marques, nove anos, moradora em Santa Genebra; Sofia Canova, 33 anos, e Aparecida Canova, 13, de Paulínia; também de Paulínia, Durvalina Carão, 14 anos; as irmãs Antônia e Odila Amadeu, de 14 e 19 anos; Maria Galdino, com 25, e seu filho Orlando, de dois, e de Betel, a menina Akiko Kichimure, de seis anos. Todos sepultados no Cemitério da Saudade – Paulínia, Betel, Santa Genebra era tudo Campinas naqueles tempos.

Os feridos, atendidos na Assistência, foram Gozamura Kichimure (pai de Akiko); Antônio Marques, cinco anos, e Alfredo Marques, de 35, irmão e pai de Doraci; Carlos Leoni, motorista e dono da jardineira; Nicola Amadeu, pai de Antônia e Odila; Antônia e Antônio Carão, irmã e pai de Durvalina, e Amadeu Sacomandi, residente em Americana.

Diz a notícia: “A jardineira ficou totalmente destruída, restando somente as armações e parte do revestimento; por dentro, tudo ficou carbonizado.”. O delegado adjunto Lotufo Sálvia dirigiu as investigações, acompanhado do legista Pagano Brundo.

Depois dessa, outra grande tragédia em Campinas foi o desabamento do Cine Rink, Barão de Jaguara com Conceição, em 16 de setembro de 1951, que matou 25 pessoas e feriu 400. A mais recente foi a gestão de dona Izalene e sua formidolosa turma. Um milhão de campineiros ainda sofre as conseqüências.

Pregado no poste: “Zé Dirceu levou a reforma ministerial para Condoleezza Rice aprovar?”

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