Todos em um

Locutor, noticiarista, repórter, animador, contra-regra, narrador de corrida de cavalos, apresentador, ator, poeta, disc-jóquei, dublador, cantor, compositor… Desta vez, com o perdão da palavra e do lamento quase revolta, o Céu pegou pesado. Precisava levar todos eles de uma vez só, assim que passou o Natal? Com tanta gente boa aí em cima, tinha de empobrecer ainda mais o rádio do Brasil? Rádio tão degenerado, pela infestação de políticos e pelos que prometem justamente o Céu em troca de dinheiro.

O Brasil inteiro ouve as vozes do ser humano maravilhoso chamado Muíbo César Cury. “As vozes”, porque foi um dos mais requisitados dubladores do País. Seu timbre marcou filmes e seriados: Viagem ao Fundo do Mar, Daniel Boone, Jeannie é um Gênio, Missão Impossível, Manix, Os últimos dias de Hitler, Paris está em chamas?, My Fair Lady, Jornada nas Estrelas, Flashman, Kung Fu, Lion Man, Urso Fozzi (do Muppet Show) e Rin Tim Tim (primeiro filme dublado da TV brasileira).

Na Rádio Bandeirantes desde 1952, o querido Muíbo fez de tudo: Primeira Hora (jornal falado, há 48 anos no ar), Arquivo Musical (no lugar do Antônio Carvalho, que também se foi), Jornal de Amanhã, Jornal em Três Tempos… Foi ator de novelas na Globo, Tupi, Bandeirantes, SBT, uma inesquecível com Dercy Gonçalves (Dulcinéia vai à guerra). Já ouviu uma das sessenta gravações da música ‘João de Barro’? É dele. Fez a dupla Barreto e Barroso, “um feio e outro horroroso”.

Um dia, a barra pesou feio. Foi na apresentação da “Patrulha Bandeirantes – defendendo a cidade contra o crime”, que teatralizava casos policiais. Um quadro do programa era apresentado assim:

“E aqui ‘está’ pra vocês, as broncas e os afanos do dia, porque já vai começar na ronda das delegacias.”. Eram dois locutores, Muíbo e Ronaldo Batista, às vezes Detínio de Paula, imitando estilos de um negro debochado e um nordestino. Eles narravam ocorrências curiosas nos distritos policiais. Já era a ditadura e resolveram fazer graça com um acidente de trânsito: “Oficial da Aeronáutica chifrou um poste na Vila Madalena…”. Quando o programa acabou, já havia dois oficiais da FAB na rádio, para proibir a “Patrulha”.

Acabaram trocando o veto pela promessa: nunca mais brincariam com chifre de militar, “porque militar não tem chifre!”.

Pregado no poste: “Vai acabar 2009 e a polícia não pegou quem mandou matar seo Toninho”

 

 

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