Tião Cabo Verde (e amarelo!)

“Os elogios eram tantos, que Israel resolveu ampliar seus conhecimentos de radialista. Passou a ler pequenas notícias dos jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Também anunciava aniversários, batizados e casamentos. Sucesso absoluto. Ele só caiu em desgraça quando resolveu dar as horas certas e informar a temperatura:
— À terceira badalada do sino do relógio da Matriz, são três horas, acertem seus cronômetros. A temperatura é de 25 graus, acertem seus termômetros.
E assim termina um dos “Causos verdadeiros (ou quase) de mineiros”. São dezoito histórias deliciosas e brasileiríssimas, passadas nesse mágico Sul de Minas, contadas pelo incrível Tião Cabo Verde. Você conhece o Tião Cabo Verde? Nem eu. Só por telefone. A gente se fala várias vezes por semana. O Tião é o jornalista Sebastião Magalhães, que “está” repórter do Suplemento Agrícola do Estadão, depois de ser engraxate, vendedor de pipoca e amendoim em quermesses, capinador de rua, roceiro de arroz e milho, vendedor de pães e roscas em fazendas, de autopeças a bordo de uma kombi pelo Brasil, e tratorista. Escreveu na Veja, Gazeta Mercantil, Folha, Jornal da Tarde, Guia Rural da Abril, Agência Dinheiro Vivo (do nosso Luís Nassif), Revista da Bolsa de Valores e Globo Rural. Por pouco, não trabalhou na redação da Bíblia. Ah!, ele também viveu em Paris. Grande figura, esse Tião!
O “Cabo Verde” é uma homenagem à sua terra de nascimento, que fica na Grande Poços de Caldas. E tudo acontece por ali, com algumas aventuras fugidas até Campinas. Pelo jeitão do Tião contar os “causos” e conhecendo aquela gente maravilhosa como eu conheço, tenho certeza de que tudo é verdade.
O Tião define “causo” assim: “É uma modalidade bem-humorada de fofoca. O cultivo do gênero não apenas se apóia na muleta da maledicência, mas precisa também da bengala da mentirinha. Nunca, é claro, a ponto de chegar à invencionice barata e vulgar. O causo tem de ser verídico. Ou pelo menos tem de ter um lastro de verdade. A personagem principal precisa ser real. Só que aos contadores de causos é permitido arredondar a estória”.
E cada estória! Tem a da hérnia do coronel Zé Borges; a do sumiço do Tio Alziro; a do moço espertinho do carro vermelho; a da inauguração do Cine Paratodos… Outro “causo” ótimo é o namoro da Ritinha, a quase-virgem… E a coleção de registros dos fiscais do crédito agrícola do Banco do Brasil? Cada uma! Dá uma olhada: “Fui atendido na fazenda pela mulher do mutuário. Segundo soube, ninguém quer comprá-la e sim explorá-la”; “Cobra – Comunico que faltei ao expediente no dia 14 em virtude de ter sido mordido pela epigrafada”; “Desconfio que o mutuário está com intenção de pagar o débito”; “Se não fosse o sol, tudo indicava que a chuva aumentasse a safra”. E esta: “O sol castigou o mandiocal. Se não fosse esse gigante astro, as safras seriam de acordo com as chuvas que não vieram”… Entendeu?
Tem mais! A do coronel Orestes Romão, voltando de Campinas para Poços de Caldas no ônibus da Cometa. O motorista parou e foi pedir para ele apagar o cigarro de palha: “Por acaso o senhor não viu aquela plaquinha escrita que é expressamente proibido fumar cachimbo, charuto e cigarro de palha?”. O coronel respondeu: “Ói qui, seu moço. Se eu fosse obedecer tudo quanto é placa que vejo, estava tomando esta tar de Coca-Cola des’que saí de Campinas!”.
A primeira edição, claro, está esgotada. A segunda está pra sair. Mas se você tem pressa, como eu, ligue pro Tião, que ele arruma. O telefone dele no Suplemento Agrícola é (011) 856.2339, no horário rural, digo, comercial.
Pregado no poste: “Mineiro inventou a tocaia?”

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