Tchau, chefe!

A Ponte Preta perdeu um grande torcedor; o rádio, um grande profissional e Campinas, um grande cidadão. Naturalmente líder, sabia comandar, não tinha inimigos nem adversários. “Só sei fazer amigos”, dizia sempre. Um dia, colocou-me diante de um microfone, na nossa Rádio Cultura, e disse: “Fala aí”. Não fossem o Mário Erbolato e o Roberto Godoy me fascinarem com a imprensa escrita, estaria falando até hoje, na antiga ZYR 72, do seu Abel Pedroso. Com grande orgulho fiz parte da equipe do Zito Palhares e com humildade aprendi muito com eles. Foram os primeiros passos nessa profissão de contar a história à queima-roupa, e em que errar é desumano.
Nosso chefe assumia todas as formas de (boa) conduta ao mesmo tempo. Ele era assim, um “homem simultâneo”: enérgico, brincalhão, bravo, nervoso, sereno, respeitador e gozador. Sabia exibir essa multiplicidade de caráter numa mesma reunião, durasse ela cinco minutos ou duas horas. “Sou seguidor do Carvalho Pinto, não faço nada sem planejamento”, ensinava. E tinha uma paciência sem fim, com aquela turma que trabalhava com ele. A gente não era fácil; muitos de nós não passávamos de aprendizes e ele não tinha vocação para feiticeiro.
Naquela equipe, todos tinham de aprender de tudo. E ninguém era estrela; nem ele. Ensinou o Fausto Silva a transmitir bailes de Carnaval com a mesma naturalidade com que o gordo era obrigado a saber como comandar uma cerimônia da Sexta-feira da Paixão. Um roqueiro americano cismou de dar entrevista sentado na bacia da privada do camarim do Cultura Artística. Ele disse ao Roberto Ginefra: “Vai lá, isto é rádio; ninguém tá vendo.” No fim da entrevista, o gringo puxou a descarga. Esperto, Palhares cortou o som. Ninguém ouviu aquela falta de respeito com o repórter, com os ouvintes e com o próprio rádio. Os técnicos de som penavam com ele. Palhares era do ramo, conhecia os macetes mais do que todos juntos. Numa manhã de ressaca de 1º de janeiro, ele me acordou para fazer uma reportagem insólita: “Está em Campinas um cara que toma vinte copos de cerveja por minuto e ele vai se exibir agora, na casa de um amigo. Vamos lá !” Até hoje, não acredito como consegui transmitir aquilo.
Com ele, e por causa dele, fiz transmissão de ópera no antigo Teatro Castro Mendes, concurso de Miss Campinas e campeonato de vôlei. Entrevistei governadores, prefeitos, assassinos, prostitutas, juízes de toga e de futebol, políticos, padres, freiras, jogadores de futebol, maestros, atletas olímpicos, gente pobre, rica, perseguida e consagrada.

Cantores e cantoras, médicos, engenheiros e até canários em disputa de canto e porte passaram pelo microfone da Cultura, que eu abria para eles com a retaguarda técnica, moral e profissional do “chefe”. Era sempre assim que o chamávamos. Agora, ficamos sem ele, mas todos carregando pela vida a fora tudo o que ele nos ensinou. Com alguns de nós, ele foi se encontrar — amigos que partiram antes dele e agora comemoraram sua chegada à imensidão azul.
Acho que não esqueço de ninguém daquele time: Geraldo Sussoline, Francisco “Feijão” de Assis, José Tejo Sigrist, Roberto Ginefra, Eduardo Bispo, Mário Melillo, Amauri Crocci, Danglares Gomes, Cunha Mendes, Zaiman de Britto Franco, José Arnaldo Canisin,Guerino Longhin, Alberto Feres, José Luís Nascimento, Fausto Silva, Washington Luís de Andrade, Carlos César Corneta, Carlos Cruz, Edson Longo, Gilson de Campos, eu, Pedro Lhamas, Baltazar das Neves, José Carlos Kemparski, Dito Flecha, Otacílio das Neves, Paulinho Fumaça… Será que faltou alguém ? Posso ter me esquecido, mas o Palhares, certamente, jamais se esqueceu de nós.

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