Seu condutor, adeus!

Fiquei com raiva e não atendi ao convite da Educadora, do Diário do Povo e da Casa Lord. Um absurdo. Para mim, aquela “festa espetacular” que o Lombardi Neto prenunciava na “Hora do Trabalhador”, às sete da manhã, era, na verdade, um funeral. Foi um “ano de chumbo”, mesmo, aquele 1968. Onde já se viu fazer festa para a despedida dos bondes? A cidade perdia também o bonde da história, a marca mais forte que trazia do século passado e o que lhe restava de inocência, lirismo e poesia. Desapareciam as 14 linhas da vida que cruzavam seu coração — 14 versos de um soneto que encantava Campinas.

Até hoje, não consigo imaginar a Vila sem o “1” e o “2”, singrando pela Salles Oliveira. A Barão de Itapura e a Zé Paulino, sem o “3” que me levava ao Agronômico e ao Centro, parecem becos sem saída. Do outro lado da Lagoa do Taquaral, lá no Furazóio, dava para ver se o “4” já estava no ponto final. Que graça tem a Treze de Maio sem o “5”, que circulava pelo Centro, com a bandeira da “Estação”? O Cambuí seria muito mais chique e charmoso hoje, se desse passagem para o “6” e o “7”.

Você, que viajou neles, já consegue atravessar a Pedro de Toledo sem dar uma olhadinha, só para ver se o “8” vem vindo? Ah, o “9”! Quantos anos servindo ao “Culto à Ciência”, à igreja do monsenhor Baggio, distraindo os presos no cadeião da Andrade de Neves (de trás das grades, eles saudavam os passageiros…) ou levando a meninada para um milk shake nas Lojas Americanas? Ir ao Castelo de ônibus? Jamais! Vamos pegar o “10”, que a viagem fica mais gostosa.

No Dia de Finados, o “11” parecia coração de mãe, de tão lotado a caminho do Cemitério da Saudade. Quando a Ponte jogava no “Majestoso”, era a vez do “12” partir cheio de esperança, mas nem sempre voltar feliz… Vila Esperança é a penúltima que morre, levando o “13”, para azar dos que viviam no fim da avenida dos Alecrins, então tão longe, hoje tão perto. O “14” era verde, enorme, rodou pelas ruas de São Francisco da Califórnia, antes de levar campineiros ao seu distrito mais bonito – Sousas –, nos contrafortes da Serra das Cabras, depois de atravessar o Atibaia.

Partiram e levaram com eles um pedaço da alma da cidade.

Pregado no poste: “Puts! Como era bom viver em Campinas!”

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