Será que ele é?

Está certo que naquele tempo essa marchinha fazia grande sucesso no Carnaval – Será que ele é bossa nova, Será que ele é Maomé, Parece que é trans…viado… – e é certo, também, que estávamos no auge da bossa nova e chamavam de “juventude transviada” os playboys. Reminiscências ainda recentes do filme que consagrou (e matou?) James Dean.

A revista da moda era O Cruzeiro. Semana passada, seo Heitor Beltrão me mandou um exemplar, de 1969, com uma reportagem imensa sobre os mil gols da minha, sua, nossa majestade em campo. Folheando, senti falta de uma seção importante da revista: “Um fato em foco”.

Há uns quarenta anos, foi fácil para Campinas inteira descobrir quem era o campineiro fantasiado de pirata de perna de pau, no baile do Quitandinha, e outro “filho da terra”, de libélula, no “Baile das Bonecas”, antecessor do “Gala Gay”, também no Rio de Janeiro. Foi um escândalo nesta província. As duas fotografias saíram naquela seção.

O pirata era um advogado conhecido, quase famoso, que conseguiu licença da digníssima esposa para pescar com os amigos no Rio Paraná. Na época, chegar às barrancas do “Paranazão” era uma aventura para os irmãos Vilas Boas. A mulher até que ficou orgulhosa quando ele partiu para a odisséia. Quando ele voltou, foi ela quem partiu, mas não voltou.

A libélula, quem diria! Filho de outro advogado. Nas Campinas de antanho, todos o tinham por machão, “boy” que fazia ponto no Café do Povo, rachador, da turma que andava com chicote no carro para espantar libélulas. A gang tinha até flâmula, emblema de um preconceito que não adiantou nada. “Pois é, devíamos combater o preconceito”, reconhece hoje um ex-integrante.

Se há quarenta anos foi fácil, agora, ficou difícil reconhecer quem era aquele goleiro do Guarani, caído na grande área da cabeceira sul do Brinco, tomando um gol de Pelé. O rei tinha 16 anos. “Paulo Martorano!”, jurei. Mostrei a foto para ele, mas nem ele é capaz de se reconhecer na imagem. O autor da legenda garante que é o primeiro gol fotografado do rei. A pesquisa ia bem, até que aquela santa que mora aqui em casa lançou a única dúvida que ninguém no mundo tem: “Será que ele é o Pelé?”.

Pregado no poste: “Até quem ainda não nasceu conhece o Pelé.”

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