Sentimos muito

1970 – centenário da estréia de ‘O Guarani’, de Carlos Gomes, em Milão. E Campinas não tinha um teatro para celebrar a consagração do compositor maior do Brasil. O Teatro Municipal Carlos Gomes estava demolido havia cinco anos. Em oito meses, o velho Cine Casablanca, no coração da Vila Industrial, foi desapropriado, reformado e a ópera subiu à cena. Glória inesquecível. Triunfo da paixão por esta nossa terra.

Campinas, berço de Carlos Gomes, não tinha uma orquestra digna de celebrar a memória de seu filho ilustre. Em poucos meses, nasceu uma orquestra sinfônica profissional, dirigida por um jovem maestro, Benito Juarez, que acabara de chegar para lecionar Regência na Unicamp, nossa universidade maior. Até hoje, é a única orquestra do País que gravou tantos discos – vinte! – só de músicas brasileiras autênticas. Triunfo da garra e da paixão por esta terra.

Nossa cidade, berço de Guilherme de Almeida, ganhou, em seu bi-centenário, uma sede belíssima para sua Academia Campinense de Letras. Vieram para inaugurar aquele Parthenon aqui renascido, como a Fênix, escritores de todo o Brasil. A ABL, dos fardões, mandou seu incrível imortal Vianna Moog, autor, por exemplo, de “Um rio imita o Reno”. Em seu discurso, bem-humorado, descobriu: “Estou num templo de feitio grego, sede de uma academia presidida por um Lycurgo (de Castro Santos Filho), numa cidade de prefeito Péricles e senador Orestes. Estarei eu na Grécia?”. Triunfo da sensibilidade, das tradições e da paixão por esta terra.

Tudo isso aconteceu quando nossa cidade tinha secretaria de Cultura e em seu secretário, um grande mestre, homem inteligente, culto, honesto, humano, sensível, competente, bem-intencionado, de bom caráter e de uma abnegação sem limites por uma cidade que nem é seu berço, posto que, em boa hora, saltou de Salto para cá. Leciona Português e Lingüística em universidades e ensinou milhares de adolescentes a cultivar a última flor do Lácio no incomparável colégio Culto à Ciência. Cada aula, uma exibição da arte de ensinar.

Hoje, o professor, também crítico musical, José Alexandre dos Santos Ribeiro, nosso ex-secretário de Cultura, foi contemplado com o Prêmio Internacional “Marengo D’Oro – San Marco”, na Itália, na categoria Ensaio, por sua pesquisa de quatro anos “Sobre os Instrumentos Sinfônicos e em torno deles”. Deverá ser lançado aqui dentro de quatro meses.

Como essa vida dedicada a Campinas, e a de muitos outros grandes campineiros, hoje marginalizados em sua própria cidade, os campineiros sentimos medo, revolta e nojo de viver aqui.

Pregado no poste: “Vamos tirar Campinas do lixo?”

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