Segunda volta

Ontem, interrompemos a viagem ali perto do Centro de Saúde, quando o bonde 3 escorregou, por que passaram sabão nos trilhos. Bem ali, havia uma parada obrigatória. Quando se via um poste com uma faixa branca, era ponto de bonde. E com uma faixa vermelha no fundo branco, parada obrigatória — houvesse ou não passageiros. Também não sei porque.
Subindo a Zé Paulino, ele passava na frente da fábrica de elásticos, que hoje virou igreja; do salão de barbeiro do Zé do Norte e do Zé Turco; da padaria do seo João Belletti; da farmácia do seo Júlio e do casarão do doutor Robert Walbert. Entrava na Barão Geraldo de Rezende (quando o Guarani jogava no “Pastinho”, logo ali atrás, vinha apinhado de bugrinos) e entrava glorioso na Avenida Barão de Itapura, deixando para trás mais dois casarões, o do doutor Silvino de Godoy e o do ex-prefeito Miguel Cury e da Senhora Batrum.
Agora, o bonde corria. Maiores do que ele, só as jamantas da Leco e o papa-fila da 3M. Mas o bonde era maior do que as “jardineiras” marrons da Rhodia. Na frente do Instituto Agronômico, entrava no desvio e parava. Ficava ali, esperando o outro bonde, que vinha do bairro para a cidade. Uma espera de cinco, dez, às vezes quinze minutos. A demora dependia do trem da Mojiana, que cruzava a Barão de Itapura lá em cima. Quando ele vinha, apitando na curva a caminho da estação da Praça Mauá, um guarda arrastava as duas porteiras de ferro sobre rodas e interrompia o trânsito.
Antes de chegar à porteira, atravessava a Avenida Brasil, já quase vazio. Muita gente descia ali, perto do Posto Olmos, que vendia gasolina Gulf, subia a pé, passava por baixo do pontilhão da Mojiana, pela fábrica de tecidos Pluma e ia comprar pão fresquinho na Padaria Guanabara.
Aquela porteira era um lugar mágico. Bem junto dela, funcionava o armazém do Sesi, que vendia de tudo, a preço baixo, exclusivamente para as famílias de operários. Estamos chegando ao ponto final. Um descampado, de onde se via parte da Lagoa do Taquaral e do outro lado, o temível Furazóio, hoje um bairro chique. Motorneiro e cobrador viravam os bancos ao contrário e começava a viagem de volta.
Pregado no poste: “Puts! Como era bom viver em Campinas!”

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