Se esta rua fosse minha…

“Tudo lisinho é bem melhor.”. Assim espera a vendedora Lígia Gonçalves, depois que o asfalto esconder para sempre os paralelepípedos das ruas Dr. Quirino, Uruguaiana, Ferreira Penteado, Sacramento, que estão entre as mais antigas do centro da cidade. Não será “bem melhor”, mas não há outro jeito. A profissão de calceteiro acabou. Restam alguns desses artífices extraordinários em Valinhos e em Poços de Caldas. Só eles são capazes de assentar as pedras em arcos paralelos – daí o nome –, nivelados e “lisinhos” como quer a Lígia, na entrevista à repórter Paula Pimenta.
Há trinta anos, Ribeirão Preto precisou deles e encontraram só quatro, ainda aprendizes, já sem mestres. Pelas contas dos engenheiros, aqueles quatro levariam um mês para fazer um quarteirão, colocando cada pedra em seu lugar, agüentando uma dor nas costas daquelas. A solução foi asfaltar os 125 quarteirões onde abriram valas para instalar linhas telefônicas, consertar encanamentos que se desmancharam com o tempo e construir pistas “lisinhas” para o trólebus passar. No asfalto, carro não chacoalha; não faz barulho; o toca-fitas não trepida; a suspensão dura mais; o trânsito anda mais rápido e quem viaja ao lado do motorista não acorda…
Não existe mais calceteiro, já não se fazem as ferramentas especiais para eles nem pedreiras dispostas a fazer paralelepípedos. Mas o que urbanistas e ambientalistas sérios previam há um quarto de século está acontecendo. O calor na já infernal Ribeirão aumentou cinco graus no centro, conservando 47 graus na pista asfaltada até 10 da noite. Haja chope! As enchentes se acentuaram: sem os paralelepípedos, que absorviam a chuva por suas entranhas, as galerias teriam de suportar 25% mais de água. Não suportaram.
E sem paralelepípedo sumiu também a simpática “turma da faquinha”, de meninos mantidos pelo bispo dom Nery e que por muitos anos tiravam o mato que brotava entre as pedras. “Sou da turma da faquinha/ Vou limpando esta rua/ Como se ela fosse minha…/” Você se lembra deles?
Pregado no poste: “Você se lembra de Campinas?”

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