Se esta rua fosse deles

Puxe pela memória: quando você era moleque e aprontava estripulias dentro de casa, o que sua mãe dizia? Uma ameaça infalível: “Menino, ainda mando você para o Abrigo de Menores!”. Lembra? Pois é, o Abrigo de Menores existia, ficava lá no Furazóio. Para quem não sabe, o Furazóio era mais longe do que o Chora Coati, que se escondia depois do São Bernardo. Hoje, é “ali”. Então. O Furazóio também é “ali”, do outro lado da Lagoa do Taquaral, depois do ponto final do bonde 4.

O abrigo era uma obra benemérita do bispo dom João Batista Correia Nery, para recolher menores abandonados. Uma lição de vida que as autoridades de hoje não aprenderam. No abrigo, meninos de rua de antanho tinham cama, comida, roupa lavada, educação escolar e respeito. E trabalhavam, sim. Tempos em que altar não era palanque, nem a sacristia, diretório.

Entre os muitos trabalhos que aquela criançada prestava à comunidade havia um que contagiava a todos. Eles formavam a “turma da faquinha”. Sei de muita gente importante que foi daquela turma e se orgulha disso. Contagiava, porque a gente acabava ajudando a molecada a limpar o mato que brotava entre os paralelepípedos da cidade, com uma faquinha afiada. Para quem não vê um paralelepípedo há anos, são aqueles pequenos blocos de pedra, que calçavam as ruas de Campinas. Hoje, quase todos estão cobertos pelo asfalto. No tempo dessas pedras, as enchentes eram mais raras, porque a água da chuva penetrava entre os blocos e o mato brotava. Daí, a turma limpava. Uma delícia fazer aquele trabalho.

O som da lâmina contra as pedras era inconfundível, contagiante o ritmo, contagiante a letra que eles cantavam enquanto labutavam: “Sou da turma da faquinha… Vou limpando esta rua… Como se ela fosse minha…”. Ao meio-dia, a perua de dom Nery vinha buscá-los para almoçar e estudar. Eram solidários. E nós, solidários a eles. A solidariedade acabou, menor abandonado é bandeira política, faquinha virou estilete e quando eles têm uma faquinha nas mãos, é para eliminar um parceiro de infortúnio.

Pregado no poste: “Milene Domingues, mulher de negócios-99”

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