Santo Euclides

Quando vejo certas coisas, fico até com vergonha de ser campineiro.

Dia desses, em São José do Rio Pardo, aqui pertinho, me comoveu o culto que a cidade sempre celebra em memória de Euclides da Cunha, que viveu ali com a família por três anos, de 1898 a 1901. Enquanto o engenheiro Euclides reconstruía a ponte metálica que rodara numa enchente, o escritor Euclides escrevia “Os Sertões”, que o repórter Euclides cobrira no interior da Bahia, como enviado especial do Estadão à guerra de Canudos, em 1897.

Pura devoção. Desde 1912, sem interrupção, Rio Pardo promove a “Semana Euclidiana”, de 9 a 15 de agosto, atraindo estudantes, pesquisadores, professores e cientistas do Brasil e do exterior — são mais de 600 interessados que a cada ano se concentram no lugar para debater e estudar a saga, a obra, a vida, a paixão e morte desse brasileiro raro. É a mais antiga semana de estudos culturais do Brasil. E a cidade respira Euclides. Ali, ele é nome de ponte, praça, avenida, hidrelétrica, escola, biblioteca, grêmio estudantil, marca de café, de manteiga e lanchonete… Está até no hino de São José do Rio Pardo. Por enquanto, só não é nome de igreja…

Os riopardenses não entendem porque os campineiros não fazem o mesmo por Carlos Gomes. Eles até reconhecem a obra do maestro como de maior repercussão. Alguns avaliam que Belém do Pará, onde Carlos Gomes morreu, tem mais carinho por ele do que Campinas. E Euclides não nasceu em Rio Pardo nem se consagrou na Itália, mas bem que ele queria essa consagração.

Uma lenda corre nos porões da história do Estadão: Euclides já estava de volta de Rio Pardo para São Paulo, quando, certa noite, chegou à redação do jornal a notícia de que a Estação da Luz, inaugurada havia menos de um ano, estava pegando fogo. Escalado para fazer a cobertura, ele reagiu: “Incêndio na Estação da Luz? Depois de Canudos, pra mim, incêndio só se for o de Roma!”.

Pregado no poste: “Tempos modernos: o Rio de Janeiro já tem bordel para cachorro”

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