Santa ousadia

O que mais se ouvia entre os promotores daquele evento inesquecível, em conversas amistosas, é que “somos favorecidos pela vida e temos obrigação de retribuir”. E entre a gente humilde deslumbrada, que ali estava pela primeira vez, é que “eles nos convidaram para uma festa onde falam do mesmo jeito que a gente e querem para nós o que todo mundo tem direito”.

Aconteceu no buffet mais chique da cidade a entrega do prêmio “Projeto Cidadão”, que chegou a Ribeirão Preto pela (RAC) Rede Anhangüera de Comunicação e seu jornal “Gazeta de Ribeirão”, em parceria com a Companhia Paulista de Força e Luz (“a CPFL entra com a força e a leitura do ‘Correio’ com a luz”, brincava alguém ao meu lado, que não sabia bem o que se passava e começava a se contagiar naquela hora). De fato, contagiou. Nunca se viram tantas pessoas simples, algumas ‘deficientes’, que mal compreendiam que o prêmio de cada um era uma lição para todos.) Cá entre nós, sem que ninguém nos leia, o Sylvino de Godoy Neto, presidente da RAC, deu a idéia, mas nem queria aparecer nesta crônica. Agora, eu conto: aquele reconhecimento de que “somos favorecidos pela vida e temos obrigação de retribuir” foi ele quem externou.

Pela primeira vez, parte do povo que tanto ouve falar em “Califórnia Brasileira”, expressão que sintetiza a badalada riqueza da região de Ribeirão Preto, se reuniu no palco iluminado dessa “Califórnia”, convocado para participar do início de uma nova vida. Iniciativa de gente que, ao ver alguém chorar suas dificuldades, não lucra com seu sofrimento fabricando lenços, mas se junta a eles para mostrar que todos podem crescer e realizar. Naquela noite da quinta-feira que passou, a demagogia, degradação da democracia, deixou de existir, como acontece onde o santo advento do terceiro setor se instala no Brasil.

Quem faz e participa da Casa das Mangueiras, Creche Pingo de Leite, Sociedade Espírita Obreiros do Bem, Quintais Produtivos, Padaria Sonho Real, Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto e Região (Adevirp) são guerreiros que mostram ao Brasil quanto vale um brasileiro.

O resumo do que se desejavam mutuamente veio no final, ao ser passada esta lição de Goethe: “Trate as pessoas como se elas fossem o que poderiam ser — e você as ajudará a se tornar aquilo que são capazes de ser”.

Pregado no poste: “Em vez de caras, coragem!”

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