Salvem o homem do cafezinho

Façam seu jogo, senhores!

Deu cobra na Câmara. Bem nesse lugar, onde sempre deu bode, desde os tempos em que se amarrava cachorro com lingüiça. Lá não há ratos, porque os gatos, fantasiados de raposa, são maioria. Fantasiados, porque não há raposa no jogo do bicho. Que bicho, mais, poderia dar na Câmara? Só a cobra. Afinal, ali ninguém é burro. Haveria avestruz? Faz parte do jogo político esconder a cabeça para não ver a miséria dos eleitores, quando se está longe de uma eleição. Mas não esperem um ato de desonestidade da avestruz. Ela só tem dois dedos; nem consegue voar. Águias na Câmara? Duvido. A política brasileira só produziu uma, “Águia de Haia”, muito falada pelos políticos, principalmente pelos egressos das faculdades de Direito, mas jamais imitada.

Às vezes, pode acontecer alguma cachorrada. Há os carneiros, mais submissos do que vacas de presépio, mesmo que na tribuna atuem mais ferozes do que touro de rodeio. Existem, também, os que trabalham como camelos — mas são, sem dúvida, uma espécie em extinção nessa fauna política. Encontramos os que posam de cabra macho e os que reproduzem projetos-de-lei com uma fertilidade maior do que a dos coelhos — apresentam moção de aplauso até para São Pedro, se ele mandar chuva sem provocar enchente. E ainda mandam para o eleitor cartinhas com cópia da moção. Não são cavalos no trato com o eleitorado, mas, às vezes, a conduta deles deixa a Casa parecer um verdadeiro elefante branco.

A cada dois anos, um é que canta de galo ali, embora nunca se saiba tudo o que há nos poleiros daquele terreiro. Jacaré é expressão ouvida de quando em vez nos corredores. É só um deles não conseguir o emprego prometido para algum afilhado ou cabo eleitoral, que a ameaça vem na hora: “Deixe estar, jacaré, a lagoa há de secar”. Lagoa, no caso, é a urna. Quase nunca falta cabide, porque é o povo quem paga os penduricalhos que trocaram consciência por votos…

Se decidirem imitar a Câmara de Brasília, instalando uma emissora de TV, fique certo: todos vão se exibir como os pavões do Bosque dos Jequitibás. Se derem título de cidadão a algum artista famoso, só macacos de auditório estarão na sessão solene, embora não sejam macacos no Plenário. Nos palanques da vida, prometem jamais fazer ursada com os cidadãos. Não comem peru, com medo de morrer na véspera — da eleição. Em defesa de seus interesses, comportam-se como tigres, principalmente quando brigam por uma população que o IBGE jura que a cidade não tem. Quando se trata de defender o interesse dessa população, você acha que eles se comportam como que bicho?

Mestre Mário Erbolato, quando secretário-geral da Casa, costumava dizer: “Esta legislatura está pior do que a passada e melhor do que a próxima…” Mas hoje, pelo menos à distância, parece que as coisas se inverteram. Melhoraram. Tomara.

Sem preconceitos, nunca ouvi falar que alguma vez desse veado na Câmara. Nem borboleta. Tivemos alguns leões, ali. Mas isso já é história. Por falar no leão, me lembro do grande Sérgio Porto. É dele a observação de que um leão apareceu numa repartição pública, engoliu todo mundo e ninguém percebeu. Só descobriram quando a fera papou o homem que servia o cafezinho.

Nossos vereadores foram mais espertos: mataram a cobra antes.

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