Salão de piadas

Eram dois Josés e um João. João Martins, Zé do Norte e Zé Turco — três barbeiros. Tão bons barbeiros que nenhum deles tinha carro… Azes da navalha, desastres ao volante.

O salão ficava ali onde termina a Rua José Paulino e começa a Barão Geraldo de Rezende, entre a padaria do seu João Belletti e a farmácia do seu Júlio. Ponto de encontro e do bonde “3”, que ia para o Guanabara.

Falava-se de tudo: música, futebol, política, mulher (dos outros). Trio Nagô ou Trio Iraquitã? Marlene ou Emilinha? Ponte, Guarani ou Mogiana? Gino ou Balthazar? Ruy Novaes ou Mendonça de Barros? Jânio ou Adhemar? Norma Bengel ou Odete Lara? Brigitte Bardot ou Sophia Loren? O rádio sempre ligado na Educadora. Desde a “Hora do Trabalhador”, com o Lombardi Neto e o Vladimir Matiazzo, o “Telefone pedindo bis”, com o Paulo Silas, até “O assunto das sete”, com Jolumá Brito, antes da “Voz do Brasil”. E se contava muita piada – acho que naquele lugar espelhado se criou a expressão “piadas de salão”. Embora fossem tantas, que mais parecia um “salão de piadas”.

Não consigo guardar piadas. Só me lembro delas quando me contam e descubro se já a conheço ou não. Semana passada, o templo dos três barbeiros apareceu inteirinho na minha frente. E justamente em outro salão, a mil quilômetros dali. É um cenário diferente, menos acolhedor e menos amistoso. Nada lembrava o salão da Zé Paulino, nem o cheirinho de pão quente que o seu João e a dona Noêmia vendiam baratinho para as famílias amigas. Nem ao menos o aroma do café Motta, para alegrar o ambiente. Só aquele cheiro de Aqua Velva e da Quina Petróleo Sandar. Ainda existe isso por aqui.

Dava a impressão de ninguém se conhecer ali — fregueses que entravam mudos e saíam calados, cabelos cortados, barba feita. Em vez do rádio, a TV, mostrando um jogo da Ponte Preta com o América de não sei onde, a que  todos assistiam por inanição. Como não sou pontepretano nem “ameriquense”, apanhei um panfleto jogado na cadeira ao lado, desses que circulam em fins de semana, sob os auspícios de políticos que não fazem nada, se é que algum…

Piadas que não contavam naquele salão estavam ali, numa coluninha daquele panfleto, chamada “Humor Daça”. Várias delas, percebi, já conhecia desde o tempo do salão dos Zés e do João. A primeira enumera “coisas difíceis de ver”: filho de prostituta se chamar Junior;  o Salim esquecer o troco em cima do balcão; gêmeos negros; enterro de anão; alguém com a fotografia da sogra na carteira e ex-bicha. Esqueceram de acrescentar “político competente”.

Em seguida, o autor pergunta: “Você sabe quais são os cinco maiores desejos do homem?” Ele mesmo responde: 1. Ser tão bonito quanto sua mãe acha que ele é. 2. Transar todas as mulheres que a esposa acha que ele transa. 3. Ser tão rico quanto o filho acha que ele é. 4. Ser tão bom de cama quanto ele  acha que é. 5. Trocar o carro da mulher por um aspirador de pó zerinho.

A outra anedota é infame: “Você sabe o que significa cigarro de maconha em cima de um jornal? Baseado em fatos reais…”

A última, bem, a última é a do português. “Você sabe como se reconhece um legítimo vinho português? É muito fácil: basta olhar no fundo da garrafa. O vinho é português, se lá estiver escrito: a abertura é do outro lado”.

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