Sala de espera

Pior do que sala de espera só o que há para ler numa sala de espera. É o mais requintado reduto da mediocridade impressa do mundo. Revistas do tempo em o Papa era coroinha; Pelé, gandula; o ‘bispo’ Macedo, filho de Maria; Sílvio Santos, camelô; Hebe Camargo, caloura do Ary Barroso, e dona Izalene já não sabia o que era Campinas. Pior: nada de útil. Ou alguém aproveita alguma coisa da revista Caras, da tal IstoÉ Gente e outras parecidas? Se lançarem a ‘IstoÉ Bicho’, seria melhor.
Então, entrei na melhor sala de espera que já conheci. E o que eu tenho de sala de espera o Maluf não tem de campanha eleitoral. Sala simples como o dono, um jovem de 37 anos que já viveu nestas Campinas.
O requinte está na mesa. Um livro denominado “Banco de talentos” expõe uma coletânea de obras de artesãos, escultores, poetas, cantores de cordel e contistas brasileiros. Maravilha. Foi preciso estar numa sala de espera para descobrir que brasileiros expressam essas manifestações. Nada daquilo que a televisão mostra para quem não sai de casa ou prefere Miami. Só bom gosto. Dá uma pontinha de orgulho do que resta do Brasil.
Ainda na mesa, você não vai acreditar, uma publicação da Imprensa Oficial do Estado. É! Quem edita a mais chata das leituras – o Diário Oficial – também publica algo cujo nome é… “Leitura”. Edição de março. Uma pequena, mais muito bem contada, história da história em quadrinhos brasileira. Uma entrevista da filósofa Walnice Galvão com o ministro da Cultura Francisco Weffort – e as melhores fotos que já vi de uma entrevista baseada apenas em perguntas e respostas. Parece que o leitor está vendo os dois a conversar. Há também uma reportagem curiosa de uma dúvida que assola a Paraíba: onde nasceu o grande José Lins do Rego? Outra publicação é “Paisagem cultural brasileira do Sudeste”: roteiros e lugares históricos, parques, pontos turísticos. Locais que poucos conhecem, longe da badalação comercial. Para terminar, a incrível jornada do “Copacabana Palace”, desde anos 20, do jornalista Ricardo Boechat. Traz até o episódio da facada que o então presidente Washington Luís levou da amante e disseram ao povo que ele tinha sido operado de apendicite.
Essa sala é do banqueiro Nelson Rocha Augusto, economista formado na Unicamp, professor de MBA da USP, etc., etc. etc.. E secretário de Planejamento da Prefeitura de Ribeirão Preto. Gente fina.
Explicação para tão boa sala de espera: “Só leitura de qualidade para ninguém se irritar com meus atrasos….”
Pregado no poste: “O que você está lendo?”

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