Rádio de padre

Essa expressão “rádio de padre”, nos tempos românticos do rádio, era usada para definir emissoras de pouca potência, fraquinhas, fraquinhas. Se bobeasse, não “pegavam” na esquina. Em Campinas, havia uma assim, nem era de padre. Uma vez, ela inventou de patrocinar uma gincana. As equipes, reunidas na Lagoa do Taquaral, foram informadas de que a tarefa seguinte seria cumprida em Viracopos e, chegando lá, conheceriam a próxima missão, pela rádio. Desastre. A estação não pegava no aeroporto. Lembra da vergonha que a gente passou, Beto Godoy? Nem um chiado, ao menos, para fingir que estava fora do ar. Em compensação, onde era ouvida, não se ouvia nem um pio das outras.
Se não me engano, Campinas só teve uma rádio de padre de verdade. Uma FM de nome Andorinha, simpática, programação de qualidade, e de slogan “A melhor ouvida” — já que a Cultura era “a mais ouvida”, a Educadora, “a mais popular”, e a Brasil, “a que não perde uma”. A Andorinha foi sua, padre Geraldo? Mas o padre Geraldo, antes dessa FM, dominava o horário das seis da tarde, com sua “Ave Maria”, patrocínio do D. Mazuca. Lembra, padre? Aí, começam coincidências espantosas.
Para quem gosta de rádio, está nas livrarias um livro indispensável: “Histórias que o rádio não contou”, do jornalista, radialista e professor Reynaldo Tavares. Vem acompanhado de dois CDs com quase 150 minutos de reproduções sonoras de grandes momentos da radiofonia brasileira. Não é uma obra para fãs de artistas, mas para fãs do rádio. Resultado de quinze anos de pesquisas. O Reynaldo foi fundo na investigação. Começa no século passado, com as aventuras de Rudolf Hertz, Clerk Maxwell e Guglielmo Marconi, tentando fazer o telégrafo Morse transmitir a voz humana. Na época, coisa de louco. “Essa gente tem parte com o demônio”, diziam.
Reynaldo Tavares descobriu o que nossa mestra Célia Farjallat vem falando há tempo. A primeira transmissão de rádio do mundo aconteceu em Campinas, em 1892, três anos antes de Marconi. Façanha do padre Roberto Landell de Moura, então pároco da igreja do Carmo, a mesma do padre Geraldo, o que mais soube usar o rádio em Campinas. Padre Landell “militou” na então Matriz Velha, de 28 de outubro de 1892 a 1º de Dezembro de 1896. Por causa do seu invento, foi expulso da cidade. Por imposição do clero! Repetiu a façanha em Mogi das Cruzes — tocaram-no de lá. Depois, em São Paulo: fez uma transmissão da Avenida Paulista, ouvida no bairro de Santana. Foi expulso pelo bispo, dom Duarte Leopoldo e Silva — espantoso: esse bispo é ancestral de Carlos Eduardo Leopoldo e Silva, um sócio do “marechal” Paulo Machado de Carvalho na Rádio Jovem Pan! Não é demais?
Desiludido, o jesuíta Landell de Moura foi-se para Nova York. Lá, segundo a descoberta do Reynaldo, conseguiu patentear seus inventos: transmissor de ondas sonoras, telefone sem fio (avô do celular) e telégrafo sem fio. Está tudo documentado. De volta ao Brasil, em 1905, tentou demonstrar a importância do rádio ao então presidente Rodrigues Alves, que o chamou de “maluco”. Dezessete anos depois, este país, sempre governado por gentinha, importou tecnologia para instalar equipamentos de sua primeira emissora de rádio. Em 1931, chamou Marconi para iluminar, de Gênova, a estátua do Cristo Redentor, usando ondas de rádio. Foi o fiasco da festa do centenário da Independência. O Cristo ficou pasmo com tanta ignorância.
O rádio brasileiro, antigo reduto da inteligência, anda infestado de falsos padres, falsos pastores, gigolôs da fé, exploradores do lenocínio religioso. O Cristo continua pasmo diante de tanta ignorância. Bons tempos das “rádios de padre”.

 

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