Quer aparecer?

Aquela atriz, Lília Cabral, está ótima como perua dondoca dos anos 20s, na mistura de chocolate com pimenta. Dia desses, fez até o diabo rir, exibindo um par de brincos de rubis. Balançava a cabeça; esvoaçava os cabelos; baixava o pescoço, fingindo um peso que eles nem tinham… Interpretou muito bem aquela que quer aparecer sem pendurar uma melancia no pescoço nem descer a Treze de Maio imitando a Cármen Miranda.

Como tudo o que é bom me leva de volta ao Culto à Ciência, tínhamos lá um fantástico professor de Geografia, Hilton Federici, brincalhão, alegre, irreverente, arrasador. Gostava de desbancar os exibicionistas. Aqueles tipinhos consagrados pela Lucinha Lins: “Pois eu sou feita bailarina; Se a ribalta se ilumina; Fico roxa para dançar…” São as “LPM – Loucas Por Mídia”. Ou portadores do que psiquiatras forenses chamam de “Paranóia Querelante” – os casos mais graves exigem internação.

Dois dias antes do Sete de Setembro, os alunos podiam ir à aula sem uniforme, com a desculpa de lavá-lo para o desfile. Boa desculpa também para o desfile de moda nas aulas, com as roupas mais malucas. As meninas que o digam. Pelo menos uma vez, um aluno ganhou a parada. O Sílvio, crente que arrasava, chegou numa blusa azul claro, mangas compridas, que ia quase ao meio das coxas – escondia o bumbum. Nossa musa, Eclair Farah, professora de História, também não era daqui para desmontar os exibidos. Chamou o Sílvio à mesa, mandou-o voltar à carteira para pegar o caderno, pediu que apagasse a lousa, depois fechasse a porta dos fundos da classe… E arrematou: “Gostei do desfile, Sílvio; vou comprar uma blusa igual à sua para fazer um pijama…”

Havia quem se exibisse com ajuda da família. Adoravam chegar à porta do colégio dirigindo o carro do papai para que todos vissem a pose: “Estão vendo!? Sou menor, mas já sei dirigir!” E do alto da “panca” saíam dos Gordini, DKW, Fissore… Até de Kombi. (Juro: pensei em pegar carona na carroça do Dito Colarinho e descer, triunfante, na porta da escola.)

A Zezé também teve seu dia, justo com seo Hilton. Andava com os dedos das mãos esticados; alisava a saia sem parar e só arranjava os cabelos com a mão direita. No bar do Alo, tomava Grapete erguendo o mindinho e o anular, quase enfiando os dois dedos no olho. Nem estava grávida, tinha 14 para 15 anos, mas era o assunto do dia na escola. No meio da aula de Geografia, lá na sala 10, o mestre não agüentava mais tanta exibição e soltou: “Zezé, pode parar de erguer o braço direito para fazer perguntas. Já vi que você ficou noiva…”

Pregado no poste: “Dona Izalene, a Marta se casou…”

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