Quem te viu…

(Antes de começar nossa conversa, uma sugestão que faz bem aos ouvidos e à alma, nestes tempos nada musicais: tente achar e ouvir “Madeira que cupim não rói”, frevo que mestre Capiba compôs em 1963, para o bloco Madeira do Rosarinho ganhar o Carnaval do Recife. Com o Bloco da Saudade é divino. A letra do Capiba é um sutil libelo aos juízes do Carnaval anterior que, injustamente, premiaram os Batutas de São José. Veja:

“Madeira do Rosarinho / Vem à cidade sua fama mostrar / E traz com seu pessoal / Seu estandarte tão original / Não vem pra fazer barulho / Vem só dizer… e com satisfação / Queiram ou não queiram os juízes / O nosso bloco é de fato campeão / E se aqui estamos, cantando esta canção / Viemos defender a nossa tradição/ E dizer bem alto que a injustiça dói / Nós somos madeira de lei que cupim não rói/”)

Pois é. A injustiça dói, principalmente a que se faz com a terra da gente. Para quem vive longe da santa terrinha, ver o desfile das cenas urbanas flagradas pelos fotógrafos do “Correio Popular” é de doer, mesmo. Olhar para essas cenas um dia após o outro, no jornal que chega à porta, assusta menos do que juntá-las pela Internet e observar todas de uma vez. Parece outra cidade, pior do que a que deixei há décadas. A mais parecida com a da Campinas que se orgulhava de ser orgulhosa é a de um paturi fisgando um peixe, na Lagoa do Taquaral.

A maioria das outras exibem um lugar nada aprazível, quase desumano. Veja:

No Largo do Rosário, homem dorme num banco feio pra burro com um braço e cabeça escorregando para dentro de uma caixa de papelão. A senhora da última idade se vê no espelho em favela da Rua Moscou – é a cidade dos menores e dos mais velhos abandonados, filhos e pais dos maiores desempregados. No São Fernando, mulher se esconde da chuva sob uma toalha de rosto. Depois do calor forte, um momento de se refrescar – nos gabinetes do Poder sobra ar-condicionado pago pelos impostos de gente como ela. Quem não tem burro puxa a própria carroça e descansa esparramado com sua parelha na beira da calçada. O almoço é um espeto suspeito no chão da Moraes Salles. Indigente se esquece da vida sob a placa que manda o povo parar e olhar para a direita – esquerda, direita ou centro, o caminho é sempre para a ilusão.

A esperança de Campinas aparece na música: a jovem toca violino na 13 de Maio, para arrecadar dinheiro para a festa de fim de ano das crianças sem esperança do Jardim Monte Cristo.

Pregado no poste: “A Internet não mostra o nome dos fotógrafos. Parabéns a todos”

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