Quem ganha?

Quase 400 mortos depois, acabou o ano de 1997 em Campinas, o da mais cruel travessia da história da cidade, (des)governada por quem diz que “lava as mãos” para a violência. É a maior tragédia desde a febre amarela, que há exatamente um século ameaçou extinguir nossa gente. Se nem a febre conseguiu, vamos reagir e renascer das cinzas a que querem nos reduzir, ao menos em homenagem à fênix imponente que emblema nosso brasão. Cuidado, porque a ameaça persiste.

Há cem anos, era um mosquito o principal ator do cenário do apocalipse montado nesta terra de Barreto Leme. Nos conta o magistral médico e historiador Lycurgo de Castro Santos Filho, em “A febre amarela”: “Foram em número de cinco os surtos epidêmicos que atingiram Campinas O primeiro em 1889, o segundo em 1890, o terceiro em 1892, o quarto em 1896 e o quinto e último em 1897”. Comparando as tragédias, quantos surtos de “indigência administrativa” se abateram sobre Campinas nos últimos anos? Os “mosquitos” de hoje são piores. Não há vacina capaz de imunizar a sociedade contra eles.

Como nos terríveis tempos da febre, a Campinas de hoje acorda, todos os dias, apavorada e indefesa. Quem vai morrer hoje? Cem anos atrás, o inimigo era desconhecido. Levou tempo para se descobrir que era um mosquito o assassino daquela comunidade diferenciada num Brasil já atrasado. Hoje, os inimigos são conhecidos, mas poderosos e traiçoeiros, ainda não há como se livrar deles. A única arma é o voto, manipulado, iludido, comprado. Por que usam o poder para manter a sociedade ignorante, graças às escolas públicas que massacram; aos professores que humilham com baixos salários; à saúde pública que sucateiam; aos órgãos de comunicação que usurpam e enganam; aos… aos… aos…

Conseguiram criar uma máquina de fazer bandidos, gente rebelde e revoltada contra tudo e contra todos, fruto da crueldade que impõem ao povo, em troca de benefícios exclusivos para satisfazer suas ganâncias e de uma casta de privilegiados que os sustenta. “O povo é só um detalhe”, disse uma ministra.

A febre amarela, pelo menos, não foi planejada. Mas obra de um desequilíbrio momentâneo da natureza, que fez mosquitos transmissores se espalharem, inoculando seu veneno e matando indistintamente, pobres e ricos, fracos e poderosos, povo e elite, muitos plebeus e alguns dos últimos barões. Agora, os mosquitos não matam diretamente. Eles criaram “clones” de si mesmos, que agem como resultado da ação maléfica e tramada por seus “originais”.

Fôssemos uma nação governada com justiça, abnegação, humildade, altruísmo, sabedoria e honestidade, Campinas não teria sido palco de quase 400 homicídios neste ano que acabou de passar. Mas essas palavras não existem no dicionário nem nos sentimentos de certos mosquitos. Muitos desses mortos foram vítimas de clones dos que governam o País.

O cenário permanece aterrador, propício para a multiplicação desses vetores da morte. Principalmente neste ano eleitoral. Seus criadores estarão voando sobre nossas cabeças, querendo sugar nosso voto, para planejarem como nos sugar depois. Um já anunciou que vai “disputar para ganhar”. Quando eles ganham, nós corremos o risco de perder tudo, até a vida. Feliz 98 — sem mosquitos.

 

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