Que saudade!

Quando o telefone tocou, chegou a mensagem do Armando Madeira. Sábado passado, escrevi aqui “Paranaíba, no Piauí”. Como bom piauiense, corrigiu-me na hora: lá fica Parnaíba e seu delta, maior e mais belo das Américas; Paranaíba está mais perto, em Minas.

Obrigado, Armando.

Mas quando atendi ao telefone, a voz vinha de Campinas, sotaque italiano daqueles bons, que devia gesticular de tanta “indignaçon”. Não vou interromper. Deixemo-lo falar, porque foi uma delícia:

“Sou seu cliente (???)” O “???” é meu. “Quando ouço a Fafá de Belém cantar o Hino Nacional, tenho ‘réiva’, dela, viu? Samba é samba; bolero é bolero; forró é forró; valsa é valsa; hino é hino, porca miséria! Por que fazer isso com nosso hino? Cantar arrastado que nem tartaruga, como faz quella una! Adesso, virou moda. No jogo com a Argentina, me aparecem o Milton e o Gil cantando do ‘memo’ jeito largado, com moleza, ‘devagarinho’…

Fui professor de Canto Orfeônico, formado no Conservatório Musical Superior das Faculdades Campineiras, nos tempos do Monsenhor Salim e do cônego Vaqueiro. Aluno do Décio e da Mercedes de Camargo Andrade, da Elifas Chinelatto, dos maestros João Batista Julião e Luís Biela de Souza. Em quatro anos, estudei 21 matérias, e aprendi que é proibido fazer arranjo de hinos patrióticos. Mas esses ‘porqueiras’ não têm mais pátria, são tutti uns ‘inhorante’. Hino é para se cantar com a mão no coração e em posição de sentido! Se o Francisco Manuel da Silva, que fez a música do hino do Brasil, ouve aquela Fafá, o Milton ou o Gil, vai ter uma tremedeira no túmulo, levanta e esgoela esses três! E ‘io’ esgoelo ‘giunto’.

‘Tru’ dia fui no casamento. ‘Má’ só me ‘farta tocá’ forró na igreja. Olho lá no fundo e vejo um amigo da faculdade tocando pistom. ‘Hoje é assim, belo, vale tudo!’ E eu nunca tinha ouvido aquilo que ele tocava. Não é música! Ainda me aparece uma professora da Unicamp pra dizer que agora pode tudo. Você, que estudou no Culto à Ciência, deve ter aprendido a cantar – e a declamar – todos os hinos, Nacional, da Bandeira, da Independência, da República, com a Mariinha. E se não soubesse, ai!, ela te puxava as ‘orêia’, non? Porque a Mariinha era fogo!”

(Com licença, que rolou uma lágrima de respeito, admiração e saudade…).

“Como ela tocava bonito o Hino Nacional no piano! A gente flutuava, lembra?”

Hoje, é isso que está aí. Não aceito o que fazem com tudo o que é nosso. Eu sou do tempo que chamavam campineiro de ‘viado’. Nem isso fazem mais! Pois eu preferia ouvir que Campinas é terra de ‘viado’, do que viver debaixo dessa ‘principessa bisogna’ que ‘rumaram’ pra ‘noi’. Ocê num acha?

Pregado no poste: “Dos filhos deste solo, a mãe fugiu!”

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