Que abacaxi!

Nem que fosse o Zé da Esquina. Talvez nem o Zé da Esquina seja tão insensível para dar um fora desses. É como um jogador de futebol dizer que nunca ouviu falar no Pelé. Imagine um cirurgião plástico desconhecer o Ivo Pitangui. Ou um compositor ignorar o Tom Jobim (um compositor de “música” sertaneja, vá lá…). Que tal a Ana Maria Braga dizer que não conhece a Hebe Camargo e a Vera Fischer perguntar quem é a Fernanda Montenegro?

E se seo Pagano não soubesse dizer ao Maluf onde fica Campinas? Nenhum cientista brasileiro vai confessar que não sabe sobre Alcides Carvalho e qualquer escritor, ainda que iniciante, que nunca leu Érico Veríssimo. Assim como qualquer padre já ouviu falar em João Paulo II e todas as freiras respondem na ponta da língua quem é Jesus Cristo. Essa indiferença só admito no cônego Caran, se ele perguntar quem era aquele Alecrim que mataram na frente da Catedral.

Mas quando menos se espera, essa barbaridade é perpetrada. Um cineasta da inteligência do Arnaldo Jabor, comentando o filme “Missão Impossível 2”, disparou: “…cada vez mais aprisionados neste videogame operado pelos Estados Unidos …, talvez cheguemos a um futuro de felicidade idiotizada, com a alegria de mongolóides, num eterno parque de diversões…”. Uma ignorância só perdoável há meio século, quando nada se sabia da Síndrome de Down. Uma ignorância que, exibida hoje, fere os direitos humanos e consterna famílias que vêem em seus filhos portadores da síndrome “um projeto de Deus para ser executado”.

Será que o brilhante cineasta e crítico de cinema Arnaldo Jabor não sabe que alguns portadores da síndrome são atores e até ganharam prêmios em Cannes, como o francês Pascal Duquenne, Palma de Ouro em 1996, por sua atuação em “O Oitavo Dia”? Ou ignora o brasilerinho “Carlinhos”, Leão de Bronze em 1998, no Festival Internacional do Filme Publicitário, e premiado no Festival Internacional de Nova York? E tudo porque retrata um menino down, capaz de ir à escola, de nadar, de aprender piano – um menino que pede apenas respeito?

Pregado no poste: “Informar-se para informar o público.”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *