Quando os bichos eram queridos

Seo Milton soube da égua espancada e me contou dos tempos de carinho dos donos pelos animais em Campinas:

“Primeiro, a segurança e o conforto do animal, seu patrimônio de alto valor e estima. Conforto, como a proteção dada pelos ‘tubos’ de couro que cobriam as correntes metálicas; os arreios sobre a manta grossa de algodão — o pelego. Nada de ferraduras gastas. Um bastão fixo, vertical, em uma das hastes do varal da carroça, aliviava o peso da carga.

Nos arquivos da Prefeitura, há vários pedidos de autorização para trabalhar de carroceiro. Nas carroças, uma pequena placa de latão, numerada, indicava o veículo apto e o dono habilitado. Tudo isso contrasta com os maus tratos a esses dignos animais, como aconteceram recentemente em Campinas. São inteligentes: só os sons emitidos pelo dono bastam para conduzi-los. Desnecessária qualquer outra atitude.

Vizinho à casa aonde nasci, na Rua do Açúcar, morava João ‘fruteiro’. Ali foi meu primeiro contato com cavalos, carroças e carroceiros. Eu era pequeno, debruçava-me no muro para vê-lo chegar e descarregar as caixas com frutas que sobravam. Ele e toda a família falavam alto. Havia pressa, talvez para poupar o animal do peso, depois de mais de meio dia de trabalho sem descanso.

Perto dali, na Júlio Ribeiro, ficava a casa do Luiz ‘Carroceiro’. Ele trabalhava no pátio de cargas da Companhia Paulista, ao lado do chafariz. De gestos e falas contidas, vestia-se de forma pouco comum entre os colegas, sempre de roupas alinhadas e seu impecável chapéu de feltro. Dobrado em seu ombro, o chicote, que nunca vi usá-lo. Cuidava do cavalo na oficina do ferreiro Noca, na Governador Pedro de Toledo, perto do posto de gasolina do Constant, para trocar ferraduras, aparar a crina e dar um trato com a escova no pêlo. Terminada a fatiota, ia com os mesmos modos de um homem que acaba de sair do barbeiro… Elegância contagiante. Notório o orgulho e satisfação que o Luiz sentia! Quantos elogios na volta para casa!

Quando me mudei para a Quintino Bocaiúva, na Rua do Café morava o Mário ‘padeiro’. Sua carroça de entrega era especial, toda fechada, com um tampo que abria para cima, sempre limpo. Lembro-me ainda do cheiro do pão sovado, quando abria aquela tampa… À tardinha, do campinho de futebol ali perto, se viam a carroça na frente de sua casa, com as hastes do varal apontadas para cima, e o cavalo pastando tranqüilamente no terreno baldio.

Todo dia, passava uma carroça especial, com quatro rodas e o compartimento de carga alto e fechado, todo verde, escrito nas laterais: “Fazenda Boa Vista”. Levava leite para a Leco. Subia a Quintino bem devagar, em silêncio, com seu sinistro condutor imóvel, calado. De surpresa, vinha uma fora do comum, longa, toda a extensão coberta e o carroceiro sentado de lado. Era o sorveteiro, de branco, com boné branco no formato de barquinho de papel. Vinha não sei de onde e só aparecia de novo se Deus quisesse.

No Grupo Escolar D. João Nery, na Quintino e na frente do armazém da Dra. Filomena, conheci o Toninho, filho de outro comerciante de pães. Brincar, só depois desatrelar o cavalo da carroça. Ritual a ser seguido à risca; se não, altas broncas sobre nós…

Na divisa do Bonfim com o Jardim Aurélia, o vizinho era o Sr. Yrone ‘verdureiro’. Fui amigo de seus filhos, no início da adolescência. Era tarefa dos filhos livrar o animal das correias, cintos e fivelas da carroça, no fim da jornada. Dava para notar a satisfação do cavalo livre. Água e capim fresco o esperavam no quintal. Na rua, passavam carvoeiros, lenheiros, peixeiros e o bucheiro, em sua carroça vermelha. Parava na frente da casa de D. Leontina. Sob a carroça, o gato dela esperava algum prêmio.

Fm dos anos 50s, Brasília quase pronta, ainda vejo o carroção azul da Prefeitura puxado por dois burros, levando o lixo carregado em latas de alças azuis feitas na Metalúrgica Vulcão. Brasília inaugurada, vem o mesmo carroção, agora puxado por um tratorzinho. Fim de um meio de transporte vital para o desenvolvimento de nossa Campinas.

Pregado no poste: “Puts! Como era bom viver em Campinas!”

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