Quando o pó era de mico

Imagine o glorioso campineiro Cilinho diante de um sambista cheirando cocaína ou fumando crack e maconha na sua Escola de Samba Acadêmicos do Ubirajara. O coitado estaria morto até hoje, sem condições de reencarnar por todos os carnavais. O pó que fazia sucesso era outro, saía na voz da Emilinha Borba: “Vem cá seu guarda / bota pra fora esse moço / que está no salão brincando / com pó de mico no bolso / Vem cá… / Foi ele, foi ele sim / Foi ele quem jogou o pó em mim…”

Não havia preconceito e todos enalteciam alegremente a nega do cabelo duro; a mulata bossa nova; a moreninha que passou a coroa de rainha para a loirinha dos olhos claros de cristal; a cabeleira do Zezé; a Maria Sapatão; o teu cabelo não nega, mulata, mas como a cor não pega, mulata…; ).

O povo podia exclamar “Salve a morena! A cor morena do Brasil fagueiro!”. Podia duvidar: “Será que ele é bossa nova, será que ele é Maomé?” Não se evocava o terror, não havia Bin Laden. “Allah lá ô…”

Driblava-se a censura com arte, como Noel Rosa, que fez o Brasil cantar em 1931 a pobreza do povo: “Agora vou mudar minha conduta / eu vou pra luta pois eu quero me aprumar / Vou tratar você com a força bruta, / pra poder me reabilitar / Pois esta vida não está sopa / e eu pergunto: com que roupa? Com que roupa / que eu vou pro samba / que você me convidou?…” Experimente cantar isso com a melodia do Hino Nacional e sorria vitorioso, como eu, quando descobri.

Não era só a Ubirajara, não! Todas brilhavam a alma e a cara limpas: Os Marujos, Nem sangue nem areia, Leão da Várzea, Astronautas do samba, Voz do Morro, Estrela Dalva, Leão da Vila. Era uma cidade a passar e a cantar desde a Salles Oliveira, na Vila da Fé, Campos Salles, Glicério e entrar na Conceição até a porta do “Correio Popular”.

Está certo que, às vezes, se ouviam escorregões como este do repórter Cunha Mendes, na Rádio Cultura, chamando este locutor que vos escreve, que cobria o baile da Fonte São Paulo, mas sendo atendido do outro lado pelo sonoplasta Edson Longo:

— Seo Cunha, o Moacyr foi ao banheiro fazer um xixi e já volta…

Ou do saudoso Eliseu de Oliveira Gouvea entrevistando o carnavalesco Clóvis Bornai, no Baile de Gala do Tênis:

— Aqui está Clóvis Bornai, falando para a Rádio Educadora, 15 quilos na antena…

— Aaaai que antenão!

Pregado no poste: “Ô abre alas, que eu quero passar…”

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