Quando a muda pede dinheiro

Cada uma!

A menina, dezenove, vinte anos, não mais, moreninha, simpática, vive na estação rodoviária de Leme. Sabe Leme? Isso, aí na Anhangüera, depois de Araras, antes de Pirassununga. Terra que tem uma boa Rádio Cultura e onde, certa vez, há mais de trinta anos, suspeitou-se da existência de petróleo.

(Foi entre Leme e Santa Cruz da Conceição. Um certo Evaldo Lodi tinha um posto de gasolina na beira da estrada e mandou abrir um poço artesiano – exigência do Departamento de Estradas de Rodagem, para servir água melhor aos fregueses do restaurante do posto. Sortudo o Evaldo. No mesmo dia em que havia ganho um carro na rifa e um prêmio na Federal, a empresa que abria o poço avisou: “Olha, água a gente anda não achou, mas petróleo, parece.” Ele chamou a imprensa, anunciou a descoberta e mandou examinar. Em uma semana, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas avisou: “Nem petróleo nem água. É xisto betuminoso.” E assim acabou o sonho de Leme virar Dallas.).

Mas se ela sonhar em virar filial de Nashville, como Barretos, já tem até candidata a rainha de ‘peona’ de rodeio. (Peona? Existe isso, dona Célia?). Aquela garota, entre camelôs, passageiros e o infalível comércio de badulaques da rodoviária, circula pelas plataformas, entrando nos ônibus em trânsito. Para quem dá trela ou sente dó, ela é surda e muda, coitada. Entrega o cartão e se apresenta, vendendo lápis de cor, canetinhas esferográficas, Mentex e balas Pepper, por um Real. Na volta, faz a coleta.

Já vi falsos deficientes fazer de um tudo para enganar os trouxas: camelô ‘perneta’ pular em baile de resistência carnavalesca; ‘cego’ xingar juiz de futebol; ‘surdo’ dizer que não gosta do Roberto Carlos; ‘mudo’ oferecer música em serviço de alto-falante de quermesse; ‘maneta’ bater continência pra sargento, mas essa mudinha de Leme está na ponta do casco. Há uns quinze dias, foi vista numa festa de peão aqui pelas bandas de Ribeirão Preto. Não vendia balas, bombons nem canetas. Engolia um churro recheado com doce de leite no alto da arquibancada, quando o namorado, favorito do rodeio, entrou na arena em cima de um pangaré. E ela gritava: “Seguuuura peão!”.

No dia seguinte, lá iam os dois. Ela, distribuindo cartãozinho de surda-muda, e ele, mancando pelas plataformas.

Pregado no poste: “Adivinhe quais os bens inservíveis da Câmara.”

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