Puxando as pernas

Sabe aquela história que o defunto volta para puxar as pernas do desafeto? Pois é. Vai acontecer de novo — e em Campinas. Tudo porque, a esta hora, a maravilhosa Janet Leigh já sabe quem acabou com a sessão de estréia de “Psicose”, naquela noite no Cine Ouro Verde. Realmente, “foi de cinema”. Belo cinema! Platéia imensa, liras em forma de arandelas, poltronas confortáveis, som puro, dignas da sala que inagurou o cinemascope em Campinas, lá por 1955.

Mas em Campinas, há o mais carioca dos campineiros. Aquele, capaz de desnortear o mundo e o mundo inteiro rir de si mesmo. Nesse mesmo Ouro Vrde, pouco tempo antes de a Janet “morrer” esfaqueada no chuveiro do motel, passou a primeira versão de Joanna D’Arc. Nosso carioca deve ter visto o filme umas mil vezes, só para saber a hora exata de agir. E agiu. Num dado momento, cavalgando pelo interior da França, Joanna pára, pensa e olha para trás. Bem nesse instante, o dito cujo grita na sala: “Joaaanaaaaa!”. O filme virou comédia.

Geralmente, os “Betos” são mais terríveis do que os “Marcelos”. Falo de cátedra. Quando esse carioca chamado Beto Henriques se juntava ao Beto Baraldi para azucrinar a vida dos pobres pastores e crentes na tenda armada no velho “pastinho” do Guarani, na Rua Antônio Lobo… Sai debaixo! Eles conseguiram introduzir a gaita e o profano violão nas canções religiosas, com anuência do bom pastor, embora os dois desafinassem até para tocar campainha. Enquanto o pastor admirava uma provável conversão, a dupla estava de olho, mesmo, em duas meninas que nem desconfiavam do que poderia acontecer. E aconteceu. Faz tanto tempo, que não me lembro mais. Mas que aconteceu, aconteceu.

É. Esse Beto carioca é aquele mesmo que dobrou o Makerli para imitar o Vulcabrás do anúncio e partiu o sapato ao meio. Fez Química Industrial, quando esse curso era moda, “curso de playboy”, diziam. Foi trabalhar nos Estados Unidos. Ele e o Kalunga. Lá, foram até enroladores de tapete de circo. Convocado para o Vietnam, escapou. Veja você, convenceu o capitão-médico de que fôra picado pela mosca tsé-tsé, aquela do sono, e não poderia, jamais, combater. Acrditaram nele. De duas uma: ou os americanos são bonzinhos ou acharam melhor não levar aquilo para a guerra.

Na estréia de “Psicose”, ele se sentou próximo à tela, no bloco esquerdo de poltronas, a primeira do corredor central. Cinema quase lotado. À frente dele, uma garota. Quando o ator Anthony Perkins ergueu o punhal e a sombra da arma se projetou no box do banheiro, Beto agachou-se, apertou com as mãos o calcanhar da moça à sua frente, e o grito foi cinematográfico. A platéia não sabia quem gritava: se a moça ou a Janet. Certo é que muita gente se levantou para sair correndo do cinema. As luzes das arandelas foram acesas e o Beto sumiu em meio à multidão atônita, como se estivesse assustado também.

Agora, Beto, a Janet vai puxar suas pernas na cama. Já sei. Você tem pronta aquela cara de Tony Curtis em “Boeing Boeing” só para reconquistá-la… Gente, ele vai conseguir.

Pregado no poste: “Quem recebe o dízimo dá nota fiscal?”

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