“Prodígio de audácia”

Com essa manchete, o “Estadão” saudava, em maio de 1927, a façanha do piloto norte-americano Charles Lindbergh, que cruzou o Atlântico, no primeiro vôo solitário, viajando por 33 horas e meia de Nova York a Paris, a bordo do monomotor prateado Spirit of St. Louis.

            “A pátria exalta-vos e Deus abençoa-vos — há mais um dia em flor cantando e ressoando na grande história de Portugal”. Cinco anos antes, com essa mensagem exaltada de Guerra Junqueiro, um jornal lisboeta enaltecia a proeza dos “aviadores” portugueses Sacadura Cabral e Gago Coutinho. Eles eram oficiais da marinha lusitana e voaram de Lisboa ao Rio de Janeiro, repetindo pelo céu e também num monomotor, o desafio que Pedro Álvares Cabral vencera em 1500. O almirante viera pelo mar para fundar a colônia, aqueles “gajos”, seus conterrâneos, para celebrar o centenário da independência da mesma colônia…

Gago Coutinho e Sacadura Cabral foram pioneiros na ligação aérea do Hemisfério Sul; Lindbergh, do Hemisfério Norte, cinco anos depois. A invenção de Santos Dumont, mineiro de nascimento, campineiro do “Culto à Ciência”, avançava e assombrava a humanidade, a cada aventura. Para desespero dos norte-americanos, porque só eles, em todo o mundo, ainda falam nos irmãos Wright como “pais” da aviação. Deixa pra lá.

Agora, a nossa Valeria Forner anuncia na Revista do Correio, “Uma cabine nos céus”, obra de dois campineiros. Eles juram que não são malucos, mas partem do Campo dos Amarais, esperando chegar a um lugar chamado Oshkosh, nos Estados Unidos, a bordo de uma caixinha batizada “Cozy”, mais leve que a metade de um Fiat Uno. Eu, hein?! Voar é com os pássaros, meu!

O engenheiro Firmino Campos, construtor, com perdão da palavra, do avião, e Carlos Augusto “Buzum” Fairbanks, enfrentarão cinco dias de desafios, em 35 horas de vôo e onze escalas, fora as inevitáveis tempestades tropicais: Brasília, Porto Nacional (em Tocantins), Belém, Rochambeau (Guiana Francesa), Piarco, Rafael Hernandez e Exuma (no Caribe), Fort Lauderdale (Flórida), Atlanta (Georgia), Knox (Indiana) e Oshkosh. Tudo para se exibir no maior show aéreo do mundo, juntamente com outros milhares de pilotos que, como eles, juram que não são malucos. Eu não sei se sou maluco, mas, na dúvida, prefiro não viajar de avião. Só em sonho, digo, em pesadelo…

Não vou com eles, mas fico torcendo. É por causa de gente corajosa como esses “malucos” que o mundo se desenvolve. Como a imprensa americana vai saudar mais essa loucura de milhares de “pássaros solitários” sobrevoando os céus da América, vencendo perigos?

Para o país que já se instalou na Lua e, agora, em Marte, desenhando mais duas estrelas em sua bandeira, é capaz do show de Oshkosh passar em branco. Como passou em branco, há oito anos, a façanha de um professor da Universidade do Texas.

Com um motor projetado pelo professor Romeu Corsini, na Escola de Engenharia da USP, em São Carlos, aquele mestre texano foi de Austin a Paris num avião movido a álcool. Posou em Orly e ninguém deu bola para ele. Mas está conformado: “Infelizmente, cheguei no mesmo dia em que caía o Muro de Berlim. Você acha que alguém prestaria atenção em mim?”.

PS: Por causa desse vôo, os EUA homologaram o álcool como combustível de aviação. No Brasil, terra do álcool, nem homologação para avião nem álcool para veículos. “Yes, nós temos petróleo; petróleo para envenenar e matar”. Ou você acha que a colônia foi libertada?

 

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